A porta da humildade

"Vinde a mim, que sou manso e humilde de coração". Deus fez-se pequeno para nós podermos ser grandes, com a grandeza verdadeira: a humildade do coração.

Virtudes
Opus Dei - A porta da humildade

A fachada da basílica da Natividade em Belém deixa ver ainda hoje os sinais da sua antiga entrada, que, com o passar do tempo, ficou reduzida a uma pequena porta, de metro e meio de altura. Com isso impedia-se que se pudesse entrar a cavalo, protegendo assim o lugar santo. As reduzidas dimensões desta porta interpelam também o visitante actual: dizem-lhe, sem palavras, que «Devemos inclinar-nos, caminhar espiritualmente por assim dizer a pé, para podermos entrar pelo portal da fé e encontrar o Deus que é diverso dos nossos preconceitos e das nossas opiniões: o Deus que Se esconde na humildade dum menino acabado de nascer»[1].

Somos filhos e filhas de Deus

Na sua segunda encíclica, o Papa Francisco lembra-nos um dos profundos motivos da humildade. Trata-se de uma verdade simples e grande que temos o perigo de esquecer muito facilmente entre a agitação da vida quotidiana: «Não somos Deus»[2]. A criação é, com efeito, o ponto de partida firme do nosso ser: recebemos a nossa existência de Deus. Quando aceitamos esta verdade fundamental, deixamo-nos transformar pela graça divina. Conhecemos então a realidade, aperfeiçoamo-la e oferecemo-la a Deus. O amor ao mundo que nos transmite S. Josemaria leva-nos a querer melhorar o que amamos, lá onde nos encontramos, e de acordo com as nossas possibilidades. E no centro desta imensa tarefa encontra-se a humildade, «que nos ajuda a conhecer simultaneamente a nossa miséria e a nossa grandeza»[3]: a miséria, que experimentamos com frequência, e a grandeza de ser, pelo baptismo, filhas e filhos de Deus em Cristo.

Quem é humilde, desenvolve uma sensibilidade para os dons de Deus, tanto na sua própria vida como na dos outros. Compreende que cada pessoa é um dom de Deus, e assim acolhe todas as pessoas sem comparações nem rivalidades.

A humildade é «a virtude dos santos e das pessoas cheias de Deus (...): quanto mais sobem de importância, tanto mais cresce nelas a consciência de nada serem e de nada poderem fazer sem a graça de Deus (cf. Jo 15, 8)»[4]. Assim são as crianças, e assim somos diante de Deus. Por isso é bom voltar ao essencial: Deus ama-me. Quando uma pessoa se sabe amada por Deus – um Amor que descobre no amor que os outros lhe mostram – pode amar a todos.

Humildade para com os outros

A humildade leva-nos a aceitar a realidade que nos é dada, e em particular as pessoas que nos são mais próximas pelas relações familiares, pelos vínculos da fé, pela própria vida. «Logo, enquanto temos tempo, façamos o bem a todos, mas principalmente aos irmãos na fé» (Gal 6,10). O Apóstolo ensina-nos a não nos cansarmos de exercitar uma caridade ordenada. Aos que receberam o dom do batismo, como nós, como não havemos de vê-los como irmãos, filhos do mesmo Pai de bondade e misericórdia? «A humildade leva-nos pela mão a tratar o próximo da melhor forma: compreender todos, conviver com todos, desculpar todos; não criar divisões nem barreiras; comportarmo-nos - sempre! - como instrumentos de unidade»[5].

Quem é humilde, desenvolve uma sensibilidade para os dons de Deus, tanto na sua própria vida como na dos outros. Compreende que cada pessoa é um dom de Deus, e assim acolhe todas as pessoas sem comparações nem rivalidades. Cada pessoa é única aos olhos de Deus e contribui com coisas que os outros não podem dar. A humildade leva-o a alegrar-se com a alegria dos outros, pelo facto de eles existirem e fazerem parte da humanidade. Quem é humilde aprende a ser mais um: um entre outros. Neste sentido, a família tem um papel primordial: a criança aprende a relacionar-se, a falar e a escutar; não é sempre o centro da atenção entre os próprios irmãos e irmãs; aprende a agradecer, porque pouco a pouco repara no que as coisas custam. Assim, com o passar do tempo, na altura de um sucesso pessoal, verifica que muitas coisas foram possíveis pela dedicação dos seus familiares e amigos, das pessoas que o cuidam, alimentando-o e dando-lhe o calor do lar. Quem sou eu, para que me digam: “perdoa-me”? A humildade de quem pede perdão, sendo talvez pessoa revestida de autoridade, é amável e contagiosa. É-o entre esposos, entre pais e filhos, entre superiores e colaboradores.

Quem tem tendência a falar frequentemente das coisas que o “põem nervoso” ou o irritam, costuma fazê-lo por falta de amplitude de horizontes, de indulgência, de abertura da mente e do coração.

Sem por isso ser considerado ingénuo, o cristão tem boa disposição habitual para tudo o que vier do próximo, pois realmente cada pessoa vale, cada pessoa conta; cada forma de inteligência, quer seja especulativa, quer venha do coração, ilumina. A consciência da dignidade dos outros evita cair «na indiferença que humilha»[6]. O cristão, por vocação, está virado para os outros: manifesta-se a eles sem preocupações excessivas por cair no ridículo ou ficar mal visto. Há pessoas que provocam intimidação, por serem tímidas, em vez de comunicarem luz e calor: pensam demasiado em si mesmas, no que hão-de dizer os outros, talvez por um excessivo sentido de honra, da própria imagem, que poderia encobrir orgulho ou falta de simplicidade.

Polarizar a atenção sobre si mesmo, expressar repetidamente desejos excessivamente concretos e singulares, enfatizar problemas de saúde mais ou menos comuns; ou, pelo contrário, esconder de modo exagerado uma doença que os outros poderiam conhecer para ajudar-nos melhor, com a sua oração e o seu apoio: tudo isto são atitudes que precisam provavelmente de uma purificação. A humildade manifesta-se também numa certa flexibilidade, num esforço por comunicar o que vemos ou sentimos. «Tu não podes ser mortificado se és susceptível, se só vives os teus egoísmos, se dominas os outros, se não sabes privar-te do supérfluo e, por vezes, até do necessário e, enfim, se te entristeces quando as coisas não correm como tu tinhas previsto. Serás, pelo contrário, mortificado se souberes fazer-te tudo para todos para salvar a todos (1 Cor 9, 22)»[7].

Ver as coisas boas e conviver

«Tocámos flauta e não bailastes; entoámos lamentações e não chorastes» (Mt 11, 17): o Senhor serve-se de uma canção ou talvez de um jogo popular, para ilustrar o facto de alguns dos seus contemporâneos não saberem reconhecê-lo. Nós estamos chamados para descobrir Cristo nos acontecimentos e nas pessoas. Corresponde-nos respeitar os modos divinos de actuar: Deus cria, liberta, resgata, perdoa, chama... «Não podemos correr o risco de nos opormos à plena liberdade do amor com que Deus entra na vida de cada pessoa»[8].

Manifestar-se aos outros implica adaptar-se a eles; por exemplo, para participar num desporto colectivo com outros que têm menos técnica; ou esquecendo alguma preferência nossa para descansar com os outros como eles gostam. No convívio, quem é humilde gosta de ser positivo. Ao contrário, o orgulhoso tende a destacar demasiado o que é negativo. Na família, no trabalho, na sociedade, a humildade permite-nos ver os outros a partir das suas virtudes. Quem, por outro lado, tem tendência a falar frequentemente das coisas que o “põem nervoso” ou o irritam, costuma fazê-lo por falta de amplitude de horizontes, de indulgência, de abertura da mente e do coração. Talvez devesse aprender a amar os outros com os seus defeitos. Exercita-se assim uma pedagogia do amor que, pouco a pouco, cria uma dinâmica irresistível: fazemo-nos mais pequenos para que os outros cresçam. Foi assim que fez o precursor: «Convém que Ele cresça e eu diminua» (Jo 3, 30), disse o Batista. O Verbo tornou-se ainda mais pequeno: «Na tradução grega do Antigo Testamento, os Padres da Igreja encontravam uma frase do profeta Isaías – que o próprio São Paulo cita – para mostrar como os caminhos novos de Deus estavam já pré-anunciados no Antigo Testamento. Eis a frase: “O Senhor compendiou a sua Palavra, abreviou-a” (Is 10, 23; Rm 9, 28). (...) O próprio Filho é a Palavra, é o Logos: a Palavra eterna fez-Se pequena; tão pequena que cabe numa manjedoura. Fez-Se criança, para que a Palavra possa ser compreendida por nós»[9].

A quem é humilde, nada lhe é alheio: se, por exemplo, se esforça por melhorar a sua formação profissional para além do interesse natural pela sua especialidade, fá-lo para servir melhor os outros.

Jesus Cristo esteve disponível para todos: sabia dialogar com os seus discípulos, recorrendo a parábolas, colocando-se ao seu nível – por exemplo, quando soluciona o problema do imposto a César, não hesita em considerar Pedro como seu igual (cf. Mt 17, 27)[10] –, com as mulheres, santas ou mais afastadas de Deus, com os fariseus, com Pilatos. O que interessa é chegar a desprender-se do próprio feitio, para ir ao encontro dos outros. Desenvolve-se assim, por exemplo, uma certa capacidade de acomodar-se aos outros, evitando deixar-se levar por obsessões ou manias; descobrindo em cada pessoa o seu aspecto amável, o fulgor do amor divino; bastando a cada um ser mais um entre os outros, em correspondência com o que se está a celebrar na nossa casa ou no nosso país, também à luz do tempo litúrgico, que marca o ritmo da nossa vida de filhos e filhas de Deus. Quem é humilde vive atento aos que o rodeiam. Esta atitude é a base da boa educação e manifesta-se em muitos pormenores, como, por exemplo, não interromper uma conversa, um almoço ou um jantar, e menos ainda a oração mental, para atender o telefone, salvo em caso de autêntica urgência. A caridade, finalmente, nasce no ‘humus’ – terra fértil – da humildade: «A caridade é paciente, é bondosa; a caridade não é invejosa, não é arrogante, não se ensoberbece» (1 Cor 13, 4).

Humildade no trabalho

O Papa assinala na sua encíclica Laudato si que «qualquer forma de trabalho pressupõe uma concepção sobre a relação que o ser humano pode ou deve estabelecer»[11] com o que o rodeia e com os que o rodeiam. O trabalho oferece não poucas ocasiões de crescer na humildade.

Se, por exemplo, um dirigente se mostra demasiado autoritário, pode-se encontrar uma desculpa, pensando que tem muita responsabilidade sobre os seus ombros, ou simplesmente que dormiu mal. Quando um colaborador se engana, é possível corrigi-lo sem o ferir. Entristecer-se pelo sucesso dos outros denotaria falta de humildade e também de fé: «todas as coisas são vossas (…) mas vós sois de Cristo, e Cristo é de Deus» (1 Cor 3, 22-23). A quem é humilde, nada lhe é alheio: se, por exemplo, se esforça por melhorar a sua formação profissional para além do interesse natural pela sua especialidade, fá-lo para servir melhor os outros. Isso pressupõe rectificar a intenção, voltar ao ponto de vista sobrenatural, não se deixar arrastar por um ambiente superficial ou até corrompido, sem olhar, por isso, os outros por cima do ombro. Quem é humilde foge do perfecionismo, reconhece as próprias limitações e conta que outros poderão melhorar aquilo que ele fez. Quem é humilde sabe rectificar e pedir desculpa. Quando dirige, o que lhe dá capacidade de liderança é o reconhecimento da sua autoridade, mais do que um certo poder estabelecido.

Deus chamou-nos à existência com um amor gratuito. Todavia, às vezes parece que precisamos de justificar a nossa própria vida. O desejo de distinção, de fazer as coisas de outra maneira, de chamar a atenção, a excessiva preocupação por sentir-se útil e destacar no serviço aos outros, podem ser sintomas de uma doença da alma, que convidam a pedir ajuda e a aceitá-la, sendo dóceis à graça. «Com um olhar ofuscado para o bem e outro mais penetrante para o que adula o próprio ego, a vontade tíbia acumula na alma sarro e podridão de egoísmo e de soberba (...), a conversa insubstancial ou centrada em si mesmo, (...) o non cogitare nisi de se que se exterioriza no non loqui nisi de se (...), arrefece a caridade e perde-se a vibração apostólica»[12]. Pensar muito em si mesmo, falar apenas de si mesmo... A pessoa humilde evita encaminhar as conversas para a sua história pessoal, para a sua experiência, para o que fez: evita procurar desmedidamente que reconheçam os seus méritos. Bem diferente é, por outro lado, recordar as misericórdias de Deus e integrar a própria vida no desígnio da Providência. Se uma pessoa fala do que fez, é para que o outro possa desenvolver a sua própria história. Portanto, o testemunho de um encontro pessoal com Cristo, com o recato natural da alma, pode ajudar o outro a descobrir que também Jesus o ama, o perdoa e o diviniza. Que alegria, nesse caso! «Sou amado, logo existo»[13].

Somos pessoas que pretendem que os outros se submetam ao nosso modo de pensar? A tendência excessiva para insistir no ponto de vista pessoal pode denotar rigidez mental.

Há momentos especialmente propícios para renovar os desejos de humildade. Por exemplo, quando se é promovido ou se começa a ter um trabalho com certa visibilidade pública. Então é a altura de se tomarem decisões que mostrem um modo cristão de trabalhar: assumir essa posição como uma oportunidade que Deus nos dá para servir ainda mais; recusar qualquer vantagem pessoal desnecessária; intensificar a nossa atenção para com os mais débeis, sem cair na tentação de os esquecer, agora que nos damos com pessoas às que antes não conseguíamos aceder. Também é o momento de dar exemplo nos êxitos e honras inerentes a esse cargo ou trabalho, de tirar importância aos aplausos que costuma receber quem manda e, por outro lado, mostrar abertura às críticas, que costumam ficar mais veladas e que têm indícios de verdade. São muitas as possíveis manifestações da simplicidade no trabalho: rir-nos de nós próprios quando nos surpreendemos, por exemplo, procurando ver se ficámos na fotografia ou se fomos citados num texto; superar a tendência para deixarmos em tudo a nossa assinatura, ou amplificar um problema quando ninguém nos pediu conselho para o resolver, como se fosse precisa a nossa opinião em todas as circunstâncias...

Aprender a render o juízo

No ambiente profissional, familiar, até recreativo, organizam-se reuniões onde se trocam pontos de vista, talvez opostos. Somos pessoas que pretendem que os outros se submetam ao nosso modo de pensar? O que devia ser, o que devia ter sido feito... A tendência excessiva para insistir no ponto de vista pessoal pode denotar rigidez mental. É evidente que ceder não é uma coisa automática, mas em todo o caso, muitas vezes, demonstra que foram captadas as diferentes situações. Aproveitar as ocasiões para render o próprio juízo é agradável aos olhos de Deus[14]. Com frase lapidar, Bento XVI comentava numa ocasião a triste volta que deu Tertuliano nos últimos anos da sua vida: «Quando se vê apenas o próprio pensamento na sua grandeza, no final é precisamente esta grandeza que se perde»[15].

Alguma vez teremos de ouvir pessoas mais jovens, com menos experiência, mas que talvez tenham mais dotes de inteligência ou de coração, ou tenham funções às quais assiste a graça de Deus. Certamente, ninguém gosta de passar por tolo, ou por ser pessoa sem coração, mas se nos preocupar demasiado o que os outros pensam de nós, pode significar que nos falta humildade. A vida de Jesus, o Filho de Deus, é uma lição infinita para qualquer cristão investido de uma responsabilidade que a sociedade considera elevada. As aclamações de Jerusalém não fizeram esquecer ao Rei dos Reis que outros iriam crucificá-lo e que era também o Servo sofredor (cf. Jo 12, 12-19).

O rei S. Luís aconselhava o seu filho que, se algum dia chegasse a ser rei, não defendesse com vivacidade a sua opinião nas reuniões do conselho real, sem antes ouvir os outros: «os membros do teu conselho poderiam ter medo de contradizer-te, coisa que não convém desejar»[16]. É muito salutar aprender a não opinar com superficialidade, sobretudo quando não se tem a responsabilidade última e não se conhecem os fundamentos de um assunto, para além de se carecer da graça de estado e dos dados que talvez possua quem está constituído em autoridade. Por outro lado, tão importante como a ponderação e a reflexão é a disposição para render o juízo de forma nobre e magnanimamente. Às vezes é preciso exercer a prudência de ouvir os conselheiros e mudar de parecer, e nisso se manifesta como a humildade e o senso comum engrandecem a pessoa e a tornam eficaz. A prudência no juízo é favorecida pelo trabalho em equipa: fazer equipa, juntar esforços, elaborar uma ideia e chegar a uma decisão com os outros: isso tudo é também um exercício de humildade e inteligência.

Humildade do servo inútil

Nas iniciativas pastorais, nas paróquias, nas associações de beneficência, nos projetos de ajuda aos imigrantes, as soluções aos problemas muitas vezes não são evidentes, ou simplesmente existem diferentes modos de resolvê-los. A atitude humilde leva-nos a manifestar a própria opinião, a perguntar oportunamente se algum assunto está menos claro, e a aceitar até uma orientação diferente da que temos, confiando em que a graça de Deus assiste a quem exerce a sua função com retidão de intenção e conta com a ajuda de peritos na matéria.

É pouco sabido que a Igreja católica, na sua valiosa humildade coletiva, é a instituição que dá vida a mais iniciativas de ajuda a pobres e doentes, em todo o mundo. Justamente no povo de Deus, onde convivem o humano e o divino, a humildade é especialmente necessária. Que bonito é desejar ser o envelope que se deita fora quando a carta é lida, ou a agulha que deixa a linha cosida e desaparece, após ter cumprido a sua missão! O Senhor convida-nos a dizer: «Somos servos inúteis; fizemos o que devíamos fazer» (Lc 17, 10). Assim, o sacerdote terá a humildade de «aprender a não estar na moda»[17], não procurar estar sempre à frente, na vanguarda de tudo; a rejeitar o protagonismo de modo quase instintivo, porque costuma ir associado à mentalidade de proprietário das almas. Por sua vez, o fiel leigo, se for humilde, respeita os ministros do culto pelo que representam: não critica o seu pároco ou os sacerdotes em geral, mas ajuda-os discretamente. Os filhos de Noé cobriram a nudez do seu pai embriagado (cf. Gen 9, 23). «Como os filhos bons de Noé, cobre com o manto da caridade as misérias que vires no teu pai, o Sacerdote»[18]. S. Tomás Moro aplicava este relato até ao Romano Pontífice, por quem o povo cristão deveria ter rezado... em vez de o perseguir![19]

O tempo é de Deus: fé e humildade

«É unânime, a este respeito, o testemunho da Escritura: a solicitude da divina Providência é concreta e imediata, cuida de tudo, desde os mais insignificantes pormenores até aos grandes acontecimentos do mundo e da história. Os livros santos afirmam, com veemência, a soberania absoluta de Deus no decurso dos acontecimentos: “Tudo quanto Lhe aprouve, o nosso Deus fez, no céu e na terra” (Sl 115, 3); e de Cristo se diz: “que abre e ninguém fecha, e fecha e ninguém abre” (Ap 3, 7); “há muitos projectos no coração do homem, mas é a vontade do Senhor que prevalece” (Pr 19, 21)»[20]. A direcção espiritual é um meio excelente para nos situar melhor nesse horizonte. O Espírito Santo atua, com paciência, e conta com o tempo: o conselho recebido deve fazer o seu caminho na alma. Deus espera a humildade de um ouvido atento à sua voz. Deste modo é possível tirar proveito pessoal das homilias ouvidas na paróquia, não só para aprender alguma coisa, mas sobretudo para melhorar. Tomar alguma nota numa palestra de formação ou num tempo de oração, para a comentar depois com quem conhece bem a nossa alma, também é reconhecer a voz do Espírito Santo.

A fé e a humildade andam de mãos dadas. No nosso peregrinar para a pátria celestial é preciso deixar-nos guiar pelo Senhor, recorrendo a Ele e ouvindo a sua Palavra[21]. A leitura sossegada do Antigo e do Novo Testamento, com os comentários de carácter teológico-espiritual, ajuda-nos a compreender o que Deus nos diz em cada momento, convidando-nos à conversão: «Os meus planos não são os vossos planos, os vossos caminhos não são os meus caminhos – oráculo do Senhor» (Is 55, 8; cf. Rom 11, 33). A humildade da fé ajoelha-se ante Jesus Cristo presente na Eucaristia, adorando o Verbo encarnado como os pastores em Belém. Assim aconteceu com S. Teresa Benedita da Cruz, Edith Stein. Nunca se esqueceu daquela mulher que entrou numa igreja com o seu saco das compras e se ajoelhou para fazer a sua oração pessoal, em íntima conversa com Deus[22].

A humildade leva-nos a viver o presente aligeirado de qualquer possível futuro, porque os cristãos somos os que «esperam com amor a Sua vinda» (2 Tim 4, 8). Se nos zangamos perante circunstâncias menos favoráveis, precisamos de crescer em fé e em humildade. «Quando realmente te abandonares no Senhor, aprenderás a contentar-te com o que suceder, e a não perder a serenidade, se as tarefas - apesar de teres posto todo o teu empenho e empregado os meios convenientes - não saem a teu gosto... Porque terão “saído” como convém a Deus que saiam»[23]. Assim, evita-se o descontentamento exagerado, ou a tendência para reter na memória as humilhações. Um filho de Deus perdoa os agravos, não fica ressentido, segue em frente[24]. E se alguém pensa que foi ofendido, tenta não recordar as ofensas, não fica rancoroso: olha para Jesus, sabendo que «a mim, a quem ainda mais foi perdoado, que grande dívida de amor me fica!»[25]. Quem é humilde diz, com S. Paulo: «esquecendo-me do que fica para trás e avançando para as coisas que estão adiante, prossigo para a meta, para alcançar o prémio da celeste vocação de Deus em Cristo Jesus» (Fil 3, 13-14).

Esta atitude ajuda-nos a aceitar a doença e a convertê-la num tempo fecundo: é uma missão que nos dá Deus. E faz parte dessa missão aprender a facilitar que os outros possam ajudar-nos a aliviar a nossa dor e as possíveis angústias. Permitir que nos assistam, nos curem, nos acompanhem, é a prova de que nos abandonamos nas mãos de Jesus, que se faz presente nos nossos irmãos. Temos de completar «o que falta à Paixão de Cristo pelo seu corpo, que é a Igreja» (Col 1, 24).

A consciência de que somos débeis levar-nos-á a deixar-nos ajudar, a ser indulgentes com os outros, a compreender a condição humana, a evitar surpresas farisaicas. A nossa debilidade abre-nos a inteligência e o coração para compreender a dos outros. Pode-se, por exemplo, salvar a intenção ou pensar que uma pessoa esteve em situações muito difíceis de gerir, embora evidentemente isso não suponha ignorar a verdade, chamando «ao mal bem e ao bem mal», e trocando «o amargo pelo doce e o doce pelo amargo» (Is 5, 20). Por outro lado, pode acontecer, às vezes, que a pessoa tenha tendência para se infra valorizar. A baixa auto-estima, frequente em muitos ambientes, também não é salutar, porque não corresponde à verdade e corta as asas de quem está chamado a altos voos. Não há motivo para a desmoralização: a humildade leva-nos a aceitar o que nos é dado, com a profunda convicção de que os caminhos pelos que deseja conduzir-nos o Senhor são de misericórdia (cf. Heb 3, 10; Sl 95[94], 10); mas leva-nos também, por isso mesmo, a sonhar com audácia: «Sentir-se barro, recomposto com grampos, é fonte contínua de alegria; significa reconhecer-se pouca coisa diante de Deus: criança, filho. E haverá maior alegria do que a daquele que, sabendo-se pobre e débil, se sabe também filho de Deus?»[26]

Abertura à Providência

O homem e a mulher humildes estão abertos à acção da Providência sobre o seu futuro. Não procuram nem desejam controlar tudo, nem ter explicação para tudo. Respeitam o mistério da pessoa humana e confiam em Deus, mesmo que o amanhã apareça incerto. Não tentam conhecer as secretas intenções divinas, nem aquilo que supera as suas forças (cf. Si 3, 21). Basta-lhes a graça de Deus, porque «a força manifesta-se na fraqueza» (2 Cor 12, 9). Encontramos a graça no trato com Jesus Cristo: é participação na sua vida.

A seguir a uma emocionante ação de graças a Deus Pai, Jesus convida os seus discípulos de todos os tempos a aproximar-se d’Ele, quia mitis sum et humilis corde (Mt 11, 29): o Senhor é manso e humilde de coração, e por isso encontraremos n’Ele compreensão e sossego. Aproximamo-nos de Cristo na Eucaristia, aproximamo-nos do seu Corpo ferido e ressuscitado: in humilitate carnis assumptae, reza o Prefácio I do Advento – vem pela primeira vez na humildade da nossa carne. Tocamos a inefável humildade de Deus. «Humildade de Jesus: em Belém, em Nazaré, no Calvário... Porém, mais humilhação e mais aniquilamento na Hóstia Santíssima; mais que no estábulo, e que em Nazaré, e que na Cruz»[27]. Nossa Senhora acompanha-nos para que O recebamos com a humildade com que Ela recebeu o seu Filho Jesus. Salve radix, salve porta, ex qua mundo lux es orta[28]: Salve raíz, salve porta, pela qual a luz nasceu para o mundo submerso nas trevas do orgulho: Jesus Cristo, Luz de Luz[29], revela-nos a misericórdia de Deus Pai.

Guillaume Derville


[1] Papa Bento XVI, Homilia, 24-XII-2011.

[2] Papa Francisco, Encíclica Laudato si (24-V-2015), 67.

[3] S. Josemaria, Amigos de Deus, 94.

[4] Papa Francisco, Discurso à Cúria Romana, 21-XII-2015.

[5] S. Josemaria, Amigos de Deus, 233.

[6] Papa Francisco, Bula Misericordiae Vultus (11-IV-2015), 15.

[7] S. Josemaria, Cristo que passa, 9.

[8] Papa Francisco, Carta ap. Misericordia et misera (30-XI-2016), 2.

[9] Papa Bento XVI, Ex. ap. Verbum Domini, 12.

[10] Cf. Guillaume de Saint-Thierry, Exposé sur le Cantique des Cantiques, 109, em Sources Chrétiennes 82, 243.

[11] Papa Francisco, Encíclica Laudato si (24-V-2015), 125.

[12] B. Álvaro del Portillo, Carta pastoral, 9-I-1980, 31 (citado em Álvaro del Portillo, Orar. Como sal y como luz, Barcelona: Planeta, 2013, p. 207).

[13] Papa Francisco, Carta ap. Misericordia et misera (30-XI-2016), 16.

[14] Cf. S. Josemaria, Caminho, 177.

[15] Papa Bento XVI, Audiência, 30-V-2007.

[16] S. Luís de França, Testamento espiritual ao seu filho, futuro Filipe III, em Acta Sanctorum Augustii 5 (1868), 546.

[17] S. Josemaria, Temas atuais do cristianismo, 59.

[18] S. Josemaria, Caminho, 75.

[19] Cf. S. Tomás Moro, Responsio ad Lutherum, em The Yale Edition of The Complete Works of St Thomas More, vol. 5, p. 142 (CW5, 142/1-4).

[20] Catecismo da Igreja Católica, 303.

[21] Cf. Sagrada Bíblia, Tradução e notas da Faculdade de Teologia da Universidade de Navarra, comentário ao Salmo 95[94].

[22] Cf. S. Teresa Benedita da Cruz (Edith Stein), Aus dem Leben einer jüdischen Familie. Das Leben Edith Steins: Kindheit und Jugend, 1965 (ed. completa 1985), p. 362.

[23] S. Josemaria, Sulco, 860.

[24] Cf. Javier Echevarría, Carta pastoral, 4-XI-2015, 21.

[25] S. Josemaria, Forja, 210.

[26] S. Josemaria, Amigos de Deus, 108.

[27] S. Josemaria, Caminho, 533.

[28] Hino Ave Regina Cælorum.

[29] Cf. Missal Romano, Credo.