Recordações de D. Javier Echevarría

Rosário Líbano Monteiro, membro da Assessoria Central do Opus Dei em Roma, compartilha algumas lembranças de seu tempo trabalhando com D.Javier Echevarria: "deixou-me principalmente uma marca de amor a Deus. Era um homem que amava profundamente a Deus".

Do Prelado

Como é que o facto de ter conhecido D. Javier marcou a sua vida?

Eu tive a sorte de trabalhar ao lado de D. Javier Echevarría e deixou-me principalmente uma marca de amor a Deus. Era um homem que amava profundamente a Deus. Recordou-me uma vez que eu estava ainda em Portugal e vim a Roma. Contei-lhe uma preocupação que eu tinha e ele com um sorriso muito grande olhou para mim e disse-me: “não te preocupes. Olha mais para Deus”. E isso ajudou-me durante toda a minha vida a pensar que é mais importante olhar para Deus, olhar para o que Deus pode fazer de nós e não olhar para o que eu não consigo fazer, ou para o que nós temos mais dificuldades para fazer.

Era um homem profundamente alegre, e pedia muitas vezes também, a mim concretamente, que transmitisse alegria, quando ia a algum lugar

Outra ideia que me marcou profundamente foi o modo como tratava cada pessoa, o seu amor aos outros: pensava continuamente em dar alegrias a cada pessoa. Muitas vezes me pediu, me telefonava para dizer: “escreve a uma pessoa, fala com outra, vai visitar uma pessoa que esta doente que eu não posso ir.” No dia a dia esta urgência de dar alegrias aos outros foi uma constante.

Era um homem profundamente alegre, e pedia muitas vezes também, a mim concretamente, que transmitisse alegria, quando ia a algum lugar. Alegria contínua também nos momentos de dor, tristeza, preocupações: era uma pessoa alegre.

Outra característica também muito forte foi a sua paz. Dava-me, inspirava-me segurança. Dava uma paz muito grande e sempre que eu falava com ele ou que ele pedia algo, fazia-o baseado nessa paz que era fruto também do seu amor a Deus.

O que destacaria dos anos em que D. Javier esteve à frente dessa instituição da Igreja?

O que eu destacaria dos anos em que ele esteve à frente dessa Instituição da Igreja foram anos de muitas mudanças. Mudanças de todos os níveis: sociais, ideológicas, tecnológicas... E acompanhou sempre essas mudanças com uma ideia fundamental: que o mais importante é cada pessoa, o mais importante é tornar cada pessoa feliz e tinha a convicção de que uma pessoa só é feliz quando está perto de Deus. Então essa ideia a meu modo de ver foi a ideia central desses anos em que esteve à frente do Opus Dei.

Qual a iniciativa te parece a mais significativa nesses anos?

Uma iniciativa? A iniciativa que para mim foi mais significativa foi Saxum, um projeto na Terra Santa que permite conhecer mais Jesus, amá-lo mais e dá-lo a conhecer. Foram as paixões da sua vida e foi essa a iniciativa que me parece mais importante.

O que destacaria da sua personalidade?

Destacaria em primeiro lugar o modo como conhecia as situações e circunstâncias de cada pessoa e de alguma maneira se colocava nos seus sapatos, por assim dizer.

Outra ideia é a sua humildade. A sua humildade que se manifestava em coisas muito pequenas. Lembro-me, por exemplo, de algumas reuniões que tínhamos com ele, que nos dizia: “eu valho muito pouco, mas é Deus quem faz”. Perguntava-nos também o que pensávamos, era uma humildade cheia de fé, uma humildade que dizia “eu valho pouco, mas Deus pode”. Então tinha esse desejo de transformar o mundo.

E destacava também o seu amor enorme a Nossa Senhora. Recordo muitas vezes o modo como ele olhava cada imagem de Nossa Senhora, quando entrava num quarto, quando entrava numa sala de reuniões, a primeira coisa que fazia era procurar uma imagem de Nossa Senhora e olhar.

Amor à liberdade

Do modo de governar, impressionou-me o seu amor à liberdade. Perguntava-nos muitas vezes se estávamos de acordo com uma coisa ou outra, o que eu pensava de uma coisa ou outra. Recordo uma vez que nos perguntou a cada uma o que pensávamos de determinado assunto e cada uma disse livremente o que pensava e no fim, disse-nos: “pois eu pensava outra coisa, mas uma vez que pensais assim, vamos fazer como pensais.” Era um amor à liberdade muito concreto.

Outra ideia: o sentido de missão que tinha continuamente no seu modo de governar. De pensar o que mais podíamos fazer pelos outros.

E uma terceira ideia que também ajudou-me foi o sonhar com coisas grandes. Não se detinha com nada, precisamente porque sabia que era Deus quem fazia. Então isso me impressionou muito porque é Deus quem faz. Essa ideia ajudou-me muito.

Quais são os objetivos do Opus Dei para os próximos anos?

Os objetivos do Opus Dei nos próximos anos se podem resumir a um: que é secundar um desejo do Papa Francisco de levar a alegria do Evangelho a todo o mundo.

Que legado D. Javier deixa para o futuro?

Para o futuro, D. Javier Echevarría deixou muito claro que o Opus Dei está nas mãos de cada um, está nas minhas mãos. Eu recordo, uma vez ouvi contar, de uma mãe de família, do Opus Dei, que chegou a um país onde não havia nenhum centro do Opus Dei, ninguém do Opus Dei. E ela contou que foi falar com o pároco de uma igreja aonde ia à Missa e lhe perguntou: “o senhor conhece o Opus Dei?” ele disse que não e ela comentou: “O Opus Dei acaba de chegar aqui: sou eu”. Essa ideia de que “eu sou o Opus Dei” está muito clara em cada uma das pessoas, está muito clara em mim e em cada pessoa, e assim, o legado para os próximos anos é esse: que cada pessoa leva o Opus Dei nas suas mãos e com a sua iniciativa pessoal, com o seu amor a Deus, transmite a alegria do Evangelho.