O primeiro Santo de Fátima, S. Josemaria Escrivá

“Num jornal dedicado a N. Sra. Fátima, pretendemos notar a sua devoção a este Santuário da Virgem”. O Pe. Fernando Leite, sacerdote jesuíta, director da revista “Cruzada” (130.000 ex), e especialista em Fátima, afirma: “quem em tão pouco tempo galvanizou o mundo, é porque realmente a obra da santificação de todos os leigos estava à espera de alguém que a estimulasse”.

Do Opus Dei

No próximo Domingo, dia 6 de Outubro, em Roma, o Santo Padre canonizará S. Josemaría Escrivá sendo o primeiro santo que esteve no Santuário de Fátima.

Quem é o novo santo?

Nasceu em Barbastro, na Espanha, a 9 de Janeiro de 1902, tendo sido ordenado sacerdote a 28 de Março de 1925.

A 17 de Maio de 1992, na homilia da sua beatificação, resumiu assim o Santo Padre a vida deste eminente sacerdote:

«Poucos anos depois de ser ordenado sacerdote, deu início à missão de fundador, à qual se dedicaria 47 anos de amorosa e infatigável solicitude, em favor dos sacerdotes e dos leigos, da que hoje é a Prelatura do Opus Dei.

Com intuição sobrenatural... pregou incansavelmente a chamada universal à santidade e ao apostolado. Cristo convoca todos a santificarem-se na realidade da vida quotidiana; por isso o trabalho é também meio de santificação pessoal e de apostolado, quando se vive em união com Cristo».

Aos 73 anos de idade faleceu em Roma. Ofereceu a sua vida várias vezes pela Igreja e pelo Romano Pontífice. O Senhor acolheu este oferecimento, entregando a sua alma a Deus, no dia 26 de Junho de 1975, no seu gabinete de trabalho. Por essa altura o Opus Dei tinha já chegado aos cinco continentes e contava mais de 60 mil membros de oitenta nacionalidades.

A 17 de Maio de 1992 foi beatificado por João Paulo II, 19 anos após o seu falecimento. Na homilia da sua beatificação, declarou o Santo Padre que dois amores norteavam a vida do novo Santo:

«O seu grande amor a Cristo, por quem se sente fascinado, leva-o a consagrar-se para sempre a Ele... E o seu amor filial à Virgem Maria inclina-o a imitar as suas virtudes».

Num jornal dedicado a Nossa Senhora de Fátima, pretendemos notar a sua devoção a este Santuário da Virgem Maria.

Nos fins de Janeiro de 1945 o Padre Josemaría vai visitar o Bispo de Tuy-Vigo, Dom José Lopez Ortiz, seu antigo colega na Universidade de Madrid. Pergunta-lhe se não teria a santa curiosidade de falar com a Vidente de Fátima que então se encontrava naquela cidade da Galiza.

«– Dar-me-ia muita alegria e lhe recomendaria a Obra que estava a ser implantada».

Dentro em pouco o encontro realizou-se. O Padre Josemaría diz-lhe simplesmente:

«– A Irmã Lúcia, que recebeu tantas graças de Deus, e eu, que também recebo tantas graças de Deus, se não formos fiéis, ‘fazêmo-la bonita’. Podemos não ir para o Céu!»

«– Também eu tenho pensado nisso muitas vezes» – foi a humilde réplica da Vidente.

«Tratei-a com secura – recordava o fundador mais tarde – porque sabia que era uma santa, e não se aborreceu».

Relembrando que a Obra era de Deus e querendo que ela beneficiasse também Portugal, diz-lhe a Irmã Lúcia:

«– Vá quanto antes para Portugal!».

Naqueles tempos era precisa a documentação oficial para atravessar a fronteira.

«Repliquei-lhe – diz o Padre Josemaría Escrivá – que não tínhamos passaporte, mas ela respondeu: «– Isso arranjo eu imediatamente!».

Fez um telefonema para Lisboa e conseguiu um documento para passar a fronteira.

Dirigiu-se para Fátima e este Santuário ficou para sempre gravado no seu coração.

Quando passava por Portugal não deixava de visitar o seu Santuário e o Carmelo de Coimbra.

Em 1970 fez, descalço, o caminho desde a cruz alta, rezando o terço, até à Capelinha das Aparições.

Noutra altura, ao ver que, tanto o Santuário como a Capelinha das Aparições estavam ocupados com a Santa Missa, «sem uma palavra, orienta-se para a colunata e ajoelha-se no lajedo, diante da primeira estação da Via-Sacra. Toda a multidão o seguiu e se ajoelhou igualmente ao longo da Via-Sacra, rezada por outro sacerdote da Obra, Dr. António Barbosa».

Sentiu-se constrangido ao ver que tantos se dirigiam para ele, em vez de venerarem só a Nossa Senhora, e exclamou:

«Que vergonha! Que vergonha!».

As honras eram para Maria da qual lhe veio a inspiração para todos os empreendimentos, marcados sempre pelas festas marianas.

Certamente a Obra teve obstáculos, como todas as obras de Deus, mas é caso para repetirmos o que disse Gamaliel:

«Não vos ocupeis destes homens, mas deixai-os. Se esta obra é dos homens, ela destruir-se-á. Mas se é de Deus, não a podeis destruir e tomai cuidado, não façais guerra contra Deus» (Act 5, 38-40).

Quem em tão pouco tempo galvanizou o mundo, é porque realmente a obra da santificação de todos os leigos estava à espera de alguém que a estimulasse.

Está plenamente dentro do espírito do Concílio Vaticano II: «Os seguidores de Cristo, chamados por Deus e justificados no Senhor Jesus, não por merecimento próprio, mas pela vontade e graça de Deus, são feitos pelo baptismo da fé, verdadeiros filhos de Deus e participantes da natureza divina e, por conseguinte, realmente santos» (LG 40).

Padre Fernando Leite

  • “VOZ DA FÁTIMA”13 de Agosto de 2002 – Ano 80 - n.º 959