Carta pastoral por ocasião do Ano da Eucaristia

D. Javier Echevarría Prelado do Opus Dei

Do Prelado

«Na Santíssima Eucaristia, está contido todo o bem espiritual da Igreja, isto é, o próprio Cristo, nossa Páscoa e Pão vivo, que pela sua Carne vivificada e que vivifica pelo Espírito Santo, dá vida aos homens» 1. Esta misteriosa e inefável manifestação do amor de Deus pela humanidade ocupa um lugar privilegiado no coração dos cristãos e concretamente no dos filhos de Deus no Opus Dei. Assim o ensinou o nosso queridíssimo Padre com o seu exemplo, com a sua pregação e escritos, ao afirmar que a Eucaristia constitui «o centro e a raiz da vida espiritual do cristão» 2.

Por isso nos encheu de alegria a decisão do Santo Padre, tornada pública na passada Solenidade do Corpo de Deus, de celebrar um Ano da Eucaristia na Igreja universal. Recordais que este tempo começa agora no mês de Outubro, com o Congresso Eucarístico Internacional de Guadalajara (México) e concluirá em Outubro de 2005, com a Assembleia ordinária do Sínodo de Bispos, dedicada precisamente a este admirável Sacramento.

Em continuidade de pensamento com o Jubileu do ano 2000 e no espírito da Carta Apostólica Novo millennio ineunte , desejo que nós, fiéis da Prelatura, Cooperadores e pessoas que se formam ao calor do espírito da Obra, secundemos diariamente o Romano Pontífice e procuremos com todas as nossas forças que a Sagrada Eucaristia ocupe cada vez mais o núcleo de toda a nossa existência. Também vos sugiro que, neste Ano eucarístico, acompanhados por Nossa Senhora ao rezar o Terço e movidos pelo exemplo de S. Josemaria, vamos activamente ao Sacrário para manifestar a Jesus, feito Hóstia Santa, com profunda sinceridade: Adoro te devote! Proponhamo-nos essa meta com exigência de conduta, porque a nossa vida valerá tanto quanto a nossa vida eucarística for intensa.

Adoro te devote, latens deitas, quæ sub his figuris vere latitas

De tal modo Deus amou o mundo

Começamos com um acto pessoal de adoração rendida à Eucaristia, ao próprio Cristo, pois neste Santíssimo Sacramento «estão contidos verdadeira, real e substancialmente o Corpo e o Sangue juntamente com a alma e a divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo, e, por conseguinte, Cristo inteiro» 3. Jesus está presente, mas não se vê: está oculto sob as espécies de pão e de vinho 4. «Está escondido no Pão... por amor de ti» 5.

O amor que manifesta às criaturas é a causa de ter ficado entre nós, neste mundo, sob o véu eucarístico. «Desde pequeno compreendi perfeitamente o porquê da Eucaristia: é um sentimento que todos temos; querer ficar para sempre com quem amamos» 6. O nosso Padre, considerando o mistério do amor de Cristo que tem as suas delícias em estar com os filhos dos homens (cfr. Pr 8, 31), que não consente deixar-nos órfãos (cfr. Jo 14, 18), e decidiu permanecer connosco até à consumação dos séculos (cfr. Mt 28, 20), ilustrava o motivo da instituição deste Sacramento com a imagem das pessoas que se têm de separar. «Desejariam ficar sempre juntas, mas o dever – seja ele qual for – obriga-as a afastar-se uma da outra»; e, não estando em condições de conseguir o que desejam, «trocam lembranças entre si, talvez uma fotografia», mas «não podem ir além disso, porque o poder das criaturas não vai tão longe como o seu querer». Jesus, Deus e Homem, supera esses limites por nosso amor. «O que não está na nossa mão, consegue-o o Senhor». Ele «não deixa um símbolo, mas uma realidade. Fica Ele mesmo» 7: o mesmo que nasceu de Maria em Belém; que trabalhou em Nazaré e percorreu a Galileia e a Judeia e morreu crucificado no Gólgota; que ressuscitou gloriosamente ao terceiro dia e apareceu repetidas vezes aos discípulos 8.

A fé cristã sempre confessou esta identidade, também para rejeitar as nostalgias dos que desculpavam o seu escasso espírito cristão, alegando que não viam o Senhor como os primeiros discípulos; ou dos que argumentavam que se comportariam de outro modo se pudessem dar-se com ele fisicamente. «Quantos dizem agora: “como gostaria de ver a sua figura o seu rosto, as suas vestes, o seu calçado!” Pois eis que O vês, O tocas, O comes. Desejas ver as suas vestes; mas Ele dá-se-te a si mesmo, não só para O veres, mas para O tocares e comeres e receberes dentro de ti. Ninguém, pois, se aproxime com desconfiança, ninguém com tibieza: todos inflamados, todos fervorosos e vigilantes» 9.

Um Deus próximo

S. Josemaria ensinou-nos a assumir com plenitude a fé na presença real de Jesus Cristo na Eucaristia, de modo que o Senhor entre verdadeiramente na nossa vida e nós na sua, que o olhemos e o contemplemos – com o olhar da fé – como a uma pessoa realmente presente: vê-nos, ouve-nos, espera-nos, fala-nos, aproxima-se e procura-nos, imola-se por nós na Santa Missa 10.

O nosso Padre explicava que os homens tendem a imaginar o Senhor muito «longe, onde brilham as estrelas», como que desentendido das suas criaturas; e não conseguem acreditar «que também está sempre ao nosso lado» 11. Talvez tenhais encontrado pessoas que consideram o Criador tão diferente dos homens, que pensam que não Lhe dizem respeito as pequenas ou grandes vicissitudes que formam a vida humana. Nós, pelo contrário, sabemos que não é assim, que «Deus habita no mais alto e olha para as coisas pequenas» ( Sl 137, 6, Vg): repara com amor em cada um, tudo o que é nosso lhe interessa.

«O Deus da nossa fé não é um ser longínquo, que contempla com indiferença a sorte dos homens, os seus afãs, as suas lutas, as suas angústias. É um pai que ama os seus filhos até ao ponto de enviar o Verbo, Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, a fim de que, com a sua encarnação, morresse por nós e nos redimisse. É o mesmo Pai amoroso que agora nos atrai suavemente para Ele, mediante a acção do Espírito Santo que habita nos nossos corações» 12. O amor e o interesse infinitos que tem por cada um de nós levaram o Filho a ficar na Hóstia Santa, além de encarnar, trabalhar e sofrer como os seus irmãos, os homens. É verdadeiramente Emmanuel , Deus connosco. «O Criador desfez-se em carinho pelas suas criaturas. Nosso Senhor Jesus Cristo, como se não fossem ainda suficientes todas as outras provas da sua misericórdia, institui a Eucaristia para que possamos tê-Lo sempre perto de nós e porque – tanto quanto nos é possível entender –, movido pelo seu Amor, Ele, que de nada necessita, não quis prescindir de nós» 13.

Actos de adoração

Perante este mistério de fé e de amor, caímos em adoração; atitude necessária, pois só assim manifestamos adequadamente que cremos que a Eucaristia é Cristo verdadeira, real e substancialmente presente com o seu Corpo, Sangue, Alma e Divindade. Esta disposição também é precisa porque só assim o nosso amor – rendido e total – pode atingir o nível de resposta adequada ao imenso amor de Jesus por cada um (cfr. Jo 13, 1; Lc 22, 15). A nossa adoração a Cristo sacramentado, por ser Deus, abarca ao mesmo tempo gesto exterior e devoção interior, apaixonamento. Não é ritualismo convencional, mas sim oblação íntima da pessoa que se traduz externamente. «Na Santa Missa, adoramos, cumprindo amorosamente o primeiro dever da criatura para com o Criador: adorarás o Senhor teu Deus e só a Ele servirás ( Dt 6, 13; Mt 4, 10). Não adoração fria, exterior, de servo: mas íntima estima e acatamento, que é amor profundo de filho» 14.

Os gestos de adoração – tais como a inclinação de cabeça ou de corpo, a genuflexão, a prostração – querem sempre ser expressão de reverência e de afecto, de submissão, aniquilamento, desejo de união, serviço e, como é óbvio, de nenhum servilismo. A verdadeira adoração não significa afastamento, distância, mas sim identificação amorosa, porque «um filho de Deus trata o Senhor como Pai. Não servilmente, nem com uma reverência formal, de mera cortesia, mas cheio de sinceridade e de confiança» 15.

Grande era a importância que S. Josemaria dava a esses gestos na piedade, por pequenos que pudessem parecer! Esses pormenores estão cheios de sentido, revelam a finura interior da pessoa e a qualidade da sua fé e do seu amor. «Que pressa têm todos agora para tratar com Deus! (...) Tu, não tenhas pressa. Não faças, em vez de uma genuflexão piedosa, uma contorção do corpo, que é uma paródia (...). Faz a genuflexão assim, devagar, com piedade, bem feita. E, enquanto adoras a Jesus sacramentado, diz-lhe no teu coração: Adoro te devote, latens deitas . Adoro-Te, com amor, Deus escondido» 16.

E reconhecia ainda mais importância a essa atitude interior de amor, que deve impregnar todas as manifestações externas da devoção eucarística. A adoração a Jesus sacramentado vai da contemplação do seu amor por nós, à declaração rendida do amor da criatura por Ele; não se fica só em palavras, que são também necessárias, mas manifesta-se sobretudo em actos externos e internos de entrega: «que saiba cada um de nós dizer ao Senhor, mesmo sem pronunciar quaisquer palavras, que nada nos poderá afastar d’Ele e que a sua disponibilidade de se deixar ficar – totalmente indefeso – nas aparências, tão frágeis do pão e do vinho, nos converteu voluntariamente em escravos» 17. Fazendo eco a S. João Damasceno, S. Tomás de Aquino explica que, na verdadeira adoração, a humilhação exterior do corpo manifesta e estimula a devoção interior da alma, a ânsia de submeter-se a Deus e de servi-Lo 18.

Não devemos ter reparo – pelo contrário! – em repetir ao Senhor que O amamos e adoramos; mas temos de avalizar essas palavras com as nossas obras de sujeição e de obediência ao seu querer. «Deus Nosso Senhor precisa de que Lhe repitais, ao recebê-Lo cada manhã: Senhor, creio que és Tu, creio que estás realmente oculto nas espécies sacramentais! Adoro-Te, amo-Te! E, quando Lhe fizerdes uma visita no oratório, repeti novamente: Senhor, creio que estás realmente presente, adoro-Te, amo-Te. Isso é ter carinho ao Senhor. Assim O amaremos mais cada dia. Depois, continuai a amá-lo durante o dia, pensando e vivendo esta consideração: vou acabar bem as coisas por amor a Jesus Cristo que nos preside do tabernáculo» 19.

Tibi se cor meum totum subiicit, quia, te contemplans, totum deficit

Deslumbrar-se perante o mistério de amor

Perante a entrega de Jesus Cristo na Eucaristia, quantas vezes repetia o nosso Padre: «Ficou para ti»; «Humilhou-se até esse extremo por amor de ti» 20. Ao contemplar tanto amor, o coração crente fica como que fulminado, cheio de admiração, e deseja por sua vez corresponder, dando-se integralmente ao Senhor. «Eu surpreendo-me perante este mistério de Amor» 21. Cultivemos este sentimento, esta atitude da inteligência e da vontade, para não nos acostumarmos e para manter o gesto simples da criança que se deixa encantar com os presentes que o pai lhe dá. Exprimamos também com profundo agradecimento: «Obrigado, Jesus, obrigado por te teres rebaixado tanto, até saciar todas as necessidades do nosso pobre coração» 22. E, como consequência lógica, desatemos a cantar, louvando o nosso Pai-Deus, que quis alimentar os seus filhos com o Corpo e o Sangue do seu Filho; perseverando nesse louvor porque sempre será pouco 23.

Jesus ficou na Eucaristia para remediar a nossa fraqueza, as nossas dúvidas, os nossos medos, as nossas angústias; para curar a nossa solidão, as nossas perplexidades, os nosso desânimos; para nos acompanhar no caminho; para nos amparar na luta. Sobretudo, para nos ensinar a amar, para nos atrair ao seu Amor. «Quando contemplardes a Sagrada Hóstia exposta na custódia sobre o altar, olhai que amor, que ternura a de Cristo. Explico-o pelo amor que vos tenho; se pudesse estar longe trabalhando e, ao mesmo tempo, junto de cada um de vós, com que gosto o faria!

Mas Cristo, Ele sim, pode fazê-lo! E Ele, que nos ama com um amor infinitamente superior ao que podem albergar todos os corações da terra, ficou para que possamos unir-nos sempre à sua Humanidade Santíssima e para nos ajudar, para nos consolar, para nos fortalecer, para que sejamos fiéis» 24.

«Os meus projectos não são os vossos projectos, e os vossos caminhos não são os meus caminhos – oráculo de Javé. Tanto quanto o Céu está acima da Terra, assim os meus caminhos estão acima dos vossos caminhos, e os meus projectos estão acima dos vossos projectos» ( Is 55, 8-9). A lógica eucarística supera toda a lógica humana, não só porque a presença de Cristo sob as espécies sacramentais é um mistério que nunca poderemos compreender plenamente com a inteligência, mas também porque a doação de Cristo na Eucaristia ultrapassa completamente a pequenez do coração humano, de todos os corações humanos juntos. Para a capacidade da nossa mente, tanta generosidade pode parecer inexplicável, porque se encontra muito distante dos egoísmos grandes ou pequenos que tantas vezes nos atacam.

«O maior louco que houve e haverá é Ele. Cabe maior loucura do que entregar-se como Ele se entrega e a quem se entrega?

Porque loucura teria sido ficar como um Menino indefeso; mas, assim, ainda muitos malvados se enterneceriam, sem se atreverem a maltratá-lo. Pareceu-lhe pouco: quis aniquilar-se mais e dar-se mais. Tornou-se alimento, fez-se Pão.

– Divino Louco! Como te tratam os homens?... Eu próprio?» 25

É necessário dilatar o coração para aproximar-se de Jesus sacramentado. É certo que é precisa a fé; mas, para ser alma de Eucaristia, requer-se além disso, “saber querer”, “saber dar-se aos outros”, imitando – dentro do pouco que valemos – a entrega de Cristo a todos e a cada um. Com a sua experiência pessoal, S. Josemaria pôde confiar-nos: «A frequência com que visitamos o Senhor está em função de dois factores: fé e coração; ver a verdade e amá-la» 26.

Na “escola” de S. Josemaria

O nosso Padre experimentou profundamente, desde muito novo, o amor de Cristo ao ficar neste Sacramento, porque tinha uma fé muito grande – «que se podia cortar» – e porque sabia amar: podia dar-se «como exemplo de homem que sabe querer». Por isso, a «loucura de amor» do Senhor ao doar-se a nós neste Sacramento «roubou-lhe o coração», e entendeu o cúmulo de aniquilamento e humilhação a que o Senhor chegou pelo carinho terno e forte por cada um de nós. Também por isso, soube corresponder a esse amor sem se diluir num genérico anonimato: considerou-se directamente interpelado por Cristo que, na Eucaristia, se oferecia, pela sua vida e pela de todos, podendo escrever, referindo-se ao Santo Sacrifício: «A “nossa” Missa, Jesus...» 27

Empreendamos quotidianamente esse itinerário do nosso queridíssimo Fundador: peçamos ao Senhor muitas vezes com os Apóstolos, como repetia S. Josemaria: adauge nobis fidem! ; e, portanto, aprendamos na “escola de Mariano” a dar-nos constantemente aos outros, começando por servir os que se encontram à nossa volta, com uma atenção vibrante de amor sacrificado. Assim saberemos também nós entrar no mistério do Amor eucarístico e unir-nos intimamente ao sacrifício de Cristo. E, assim, o amor que albergarmos ao Senhor sacramentado conduzir-nos-á a dar-nos aos outros, precisamente sem que se note, sem o fazer sentir: como Ele, passando ocultos. «Por amor e para nos ensinar a amar, veio Jesus à terra e ficou entre nós na Eucaristia» 28.

Temos de imitar na nossa conduta pessoal o oblatus est quia ipse voluit ( Is 53, 7, Vg) de Jesus: essa decidida determinação interior de doar-se e entregar-se à pessoa amada, de cumprir o que espera e pede. Necessitamos de um coração limpo, cheio de afectos rectos, vazio das desordens que o eu desorbitado introduz. «As manifestações externas de amor devem nascer do coração e prolongar-se com o testemunho da conduta cristã (...). Que as nossas palavras sejam verdadeiras, claras, oportunas; que saibam consolar e ajudar, que saibam sobretudo levar aos outros a luz de Deus» 29.

Ser realmente alma de Eucaristia não se reduz à fiel observância de umas tantas cerimónias, que são efectivamente indispensáveis; estende-se à entrega completa do coração e da vida, por amor d’Aquele que nos confiou e continua a confiar a sua, com absoluta generosidade. Aprendamos de Nossa Senhora a humildade e a disponibilidade sem condições para amar, acolher e servir a Jesus Cristo. Meditemos frequentemente, como nos propunha o nosso queridíssimo Padre, que Ela «foi concebida imaculada para albergar Cristo no seu seio». E encaremos a pergunta com que concluía esse convite: «se a acção de graças há-de ser proporcional à diferença entre o dom e os méritos, não devíamos converter todo o nosso dia numa Eucaristia contínua?» 30.

Visus, tactus, gustus in te fallitur, sed auditu solo tuto creditur

Com a luz da fé

Que patente se mostra o fracasso dos sentidos diante do Santíssimo Sacramento! A experiência sensível, caminho natural para que a inteligência conheça o que são as coisas, aqui não basta. Só o ouvido salva o homem do naufrágio sensível perante a Eucaristia. Só ouvindo a Palavra de Deus que revela o que a mente não percebe através da sensibilidade, e acolhendo-a com a fé, se chega a saber que a substância – embora parecendo – não é pão mas o corpo de Cristo, não é vinho, mas o sangue do Redentor.

Também a inteligência soçobra, porque não consegue nem nunca conseguirá compreender a possibilidade de que, permanecendo o que é sensível – as “espécies” – do pão e do vinho, a realidade substancial constitua o Corpo e o Sangue de Cristo. «Nada vês nem compreendes, mas to afirma a fé viva, para além das leis da Terra»31.

Por esta virtude teologal consegue-se, face ao Mistério eucarístico, a certeza que à simples razão humana se apresenta como impossível. «Senhor, eu creio firmemente. Obrigado por nos teres concedido a fé! Creio em Ti, nessa maravilha de amor que é a tua Presença Real sob as espécies eucarísticas, depois da consagração, no altar e nos Sacrários onde estás reservado. Creio mais que se te ouvisse com os meus ouvidos, mais que se te visse com os meus olhos, mais que se tocasse com as minhas mãos»32.

«É toda a nossa fé que se põe em acto quando cremos em Jesus, na sua presença real sob os acidentes do pão e do vinho»33. Fé no poder do Criador; fé em Jesus, que afirma: «Isto é o meu corpo» e acrescenta: «Este é o cálice do meu sangue»; fé na acção inefável do Espírito Santo, que interveio na encarnação do Verbo no seio da Virgem e intervém na admirável conversão eucarística, na transubstanciação.

Fé na Igreja que nos ensina: «Cristo nosso Redentor disse ser verdadeiramente o seu corpo o que oferecia sob a aparência de pão ( Mt 26, 26 ss; Mc 14, 22 ss; Lc 22, 19 ss; 1 Cor 11, 24 ss); daí que a Igreja de Deus tenha tido sempre a persuasão, e agora novamente o declare neste santo Concílio, que pela consagração do pão e do vinho se realiza a conversão de toda a substância do pão na substância do corpo de Cristo Senhor nosso, e de toda a substância do vinho na substância do seu sangue. A referida conversão, própria e convenientemente, foi chamada transubstanciação pela Santa Igreja Católica»34.

Em continuidade com este Concílio e com a toda a Tradição, o Magistério posterior insistiu em que «toda a explicação teológica, que queira penetrar de algum modo neste mistério, para estar de acordo com a fé católica, deve assegurar que na sua realidade objectiva, independentemente do nosso entendimento, o pão e o vinho deixaram de existir, depois da consagração, de modo que, a partir desse momento, o Corpo e o Sangue adoráveis do Senhor Jesus estão realmente diante de nós»35.

Aconselho-vos que, especialmente ao longo deste Ano da Eucaristia , volteis a ler e mediteis alguns dos mais importantes documentos que o Magistério da Igreja dedicou ao Santíssimo Sacramento36. Acolhamos com agradecimento íntimo estes venerandos textos, reforçando a nossa obœdientia fidei à Palavra de Deus que nesses ensinamentos nos transmite com autoridade exercida em nome de Jesus Cristo37.

Credo quidquid dixit Dei Filius; nil hoc verbo veritatis verius

Palavras de vida

A nossa fé funda-se nas palavras do Senhor, que a Igreja entendeu sempre como são, quer dizer, em sentido plenamente real. Depois de ter multiplicado os pães e os peixes, o Senhor declarou: «Eu sou o pão vivo que desceu do Céu. Se alguém comer deste pão, viverá eternamente; e o pão que Eu hei-de dar é a Minha carne pela vida do mundo» ( Jo 6, 51). Não falava em sentido figurado; se tivesse sido assim, ao comprovar que muitos – incluindo alguns discípulos – se escandalizavam com essas palavras, teria explicado de outro modo. Mas não o fez; pelo contrário, reafirmou com força: «Quem come a Minha carne e bebe o Meu sangue tem a vida eterna, e Eu ressuscitá-lo-ei no último dia. É que a Minha carne é verdadeiramente uma comida, e o Meu sangue é verdadeiramente uma bebida» ( Jo 6, 54-55). Para não pensarem que ia oferecer-se-lhes como alimento de forma material e sensível, acrescentou: «O espírito é que dá vida, a carne não serve de nada. As palavras que Eu vos disse são espírito e vida» ( Jo 6, 63).

São palavras do Verbum spirans amorem : palavras de amor, que levam ao amor, porque revelam o Amor de Deus à Humanidade, que anunciam a Boa Nova: «A Trindade apaixonou-se pelo homem»38. Como não lhe hão-de interessar as nossas coisas? Como não intervirá em nosso favor quando seja necessário? «Sião dizia: “O Senhor abandonou-me, o Senhor esqueceu-se de mim”. Acaso pode uma mulher esquecer-se do menino que amamenta, não ter carinho pelo fruto das suas entranhas? Ainda que ela se esquecesse dele, Eu nunca te esquecerei» ( Is 49, 14-15). Este interesse, este cuidado de Deus por cada um de nós, com a encarnação do Verbo chega até nós através do seu Coração humano. «A fome e a dor comovem Jesus, mas sobretudo comove-O a ignorância. “Viu Jesus uma grande multidão e compadeceu-Se deles, porque eram como ovelhas sem pastor. Começou então a ensiná-los demoradamente” ( Mc 6, 34)»39.

Uma atitude de confiança

No plano natural, é lógico sublinhar a importância da experiência sensível, como fundamento da ciência e do saber. Mas se os olhos ficam «presos às coisas terrenas», não é difícil ou estranho que suceda o que descrevia o nosso Padre: «Os olhos da alma embotam-se; a razão crê-se auto-suficiente para compreender todas as coisas, prescindindo de Deus (…). A inteligência humana considera-se o centro do universo, entusiasma-se de novo com o “sereis como deuses” ( Gen 3, 5) e, enchendo-se de amor por si mesma, volta as costas ao amor de Deus»40. Numa época que «fomenta um clima mundial para centrar tudo no homem; um ambiente de materialismo, desconhecedor da vocação transcendente do homem»41, temos de cultivar em nós e difundir à nossa volta a atitude de abertura aos outros, de confiança razoável na palavra dos outros.

Dizia-vos atrás que, para compreender a «loucura do amor divino»42 da Eucaristia, é preciso “saber querer”; considerai que também é igualmente necessário “saber ouvir” e confiar, sobretudo, em Deus e na sua Igreja. A fé – ao mesmo tempo, submissão e elevação da inteligência – em Jesus sacramentado nos livrará dessa espiral nefasta que distancia de Deus e também dos outros; nos defenderá desse «orgulho generalizado» que encobre «o pior dos males»43. Esse render a inteligência ante a Palavra incriada, oculta nas espécies de pão, ajuda-nos também a não confiar só nos nossos sentidos e no nosso juízo, e a reforçar em nós a autoridade de Deus que não se engana nem pode enganar-se.

No Sacrário esconde-se a fortaleza, o refúgio mais seguro contra as dúvidas, contra os receios e as inquietações44. Este é o Sacramento da Nova Aliança, da Aliança eterna, novidade última e definitiva porque já não é possível outra forma de dar-se mais. Sem Cristo, o homem e o mundo ficariam nas trevas. Também a vida do cristão se torna cada vez mais sombria se se separa d’Ele. Este Sacramento, com a sua novidade definitiva, afugenta para sempre o que é velho, a incredulidade, o pecado. «Tudo o que é caduco, o que é prejudicial, o que não serve – o desânimo, a desconfiança, a tristeza, a cobardia – tudo isso tem de ser deitado fora. A Sagrada Eucaristia introduz a novidade divina nos filhos de Deus e nós devemos corresponder in novitate sensus ( Rom 12, 2), com uma renovação de todo o nosso sentir e de todo o nosso agir. Foi-nos dado um novo princípio de energia, uma raiz poderosa, enxertada no Senhor»45.

In Cruce latebat sola deitas, at hic latet simul et humanitas

Com Cristo no Calvário

A celebração da Eucaristia situa-nos no Calvário, pois «neste divino sacrifício, que na Missa se realiza, contém-se e incruentamente se imola aquele mesmo Cristo que uma só vez se ofereceu Ele mesmo cruentamente no altar da cruz ( Hb 9, 27) (…). Com efeito, é uma só e a mesma vítima, e o que agora se oferece pelo ministério dos sacerdotes, é o mesmo que então se ofereceu a si próprio na cruz, sendo só distinta a maneira de se oferecer»46. E ao Calvário temos acesso «não só através duma lembrança cheia de fé, mas também com um contacto actual, porque este sacrifício volta a estar presente, perpetuando-se, sacramentalmente, em cada comunidade que o oferece pela mão do ministro consagrado»47.

No Gólgota, noutra cruz, perto de Jesus está Dimas, o bom ladrão. Parecemo-nos com ele por nos encontrarmos realmente perante a mesma Pessoa, por assistir ao mesmo dramático acontecimento. Também nos parecemos – ou queremos parecer – na fé profunda nessa Pessoa: ele acreditou que Jesus anunciava o Reino de Deus e, arrependido, desejava estar com Cristo nesse Reino. Nós acreditamos igualmente que é Deus, o Filho de Deus, que se fez homem para nos salvar; mas distinguimo-nos daquele pecador contrito pelo facto de que ele via a humanidade de Cristo, mas não a divindade; nós, em Jesus sacramentado, não vemos nem a divindade nem a humanidade.

O ladrão arrependido

Ao contrário do outro malfeitor, Dimas reconhecia as suas culpas, aceitava o castigo merecido pelas suas faltas e confessava a santidade de Jesus: «Este nada praticou de condenável» ( Lc 23, 41). Também nós rogamos ao Senhor que nos acolha no seu Reino. Para o recebermos mais purificados no nosso peito, confessamos as nossas culpas e pedimos perdão; quando for necessário também, como ensina a Igreja, recorrendo antes com dor sincera ao sacramento da Reconciliação:

«Se não é decente que alguém se aproxime da função sagrada, senão santamente; (…) com maior diligência (o cristão) deve evitar aproximar-se a recebê-lo sem grande reverência e santidade, lendo nomeadamente em S. Paulo aquelas tremendas palavras: “porque aquele que o come e bebe, não distinguindo o corpo do Senhor, come e bebe a própria condenação” (1 Cor 11, 29). Por isso, o que quer comungar deve trazer à memória o seu preceito: “Examine-se, pois, cada qual a si mesmo” (1 Cor 11, 28).

O costume da Igreja declara ser necessária aquela prova pela qual ninguém deve aproximar-se da Sagrada Eucaristia com consciência de pecado mortal, por muito contrito que lhe pareça estar, sem a confissão sacramental a preceder»48.

A humildade de Cristo crucificado moveu Dimas a não se orgulhar e a aceitar com mansidão o sofrimento, afastando a tentação de se revoltar. «Humildade de Jesus: em Belém, em Nazaré, no Calvário … Porém, mais humilhação e mais aniquilamento na Hóstia Santíssima; mais que no estábulo, e que em Nazaré, e que na Cruz»49. Imitemos o latro pœnitens na disposição humilde, com maior motivo, porque o exemplo de aniquilamento na Eucaristia, que contemplamos com a fé, é ainda maior que aquele que ele viu com os seus olhos no Calvário. Quando o “eu” se levantar com soberba, reclamando direitos de comodidade, sensualidade, reconhecimento ou agradecimento, o remédio é olhar para o Crucificado, ir ao Sacrário, participar sacramentalmente no seu sacrifício. A essa conclusão chegava o nosso Padre, que terminava assim esse ponto de Caminho : «Por isso, que obrigação tenho de amar a Missa!»50.

Cátedra de todas as virtudes

Escreve S. Tomás de Aquino que Cristo na Cruz dá exemplo de todas as virtudes: «Passio Christi sufficit ad informandum totaliter vitam nostram»51, basta olhar para o Crucificado, para aprender quanto necessitamos nesta vida. E insiste: «Nullum enim exemplum virtutis abest a Cruce»52, não faltam exemplos de qualquer das virtudes, abundam claramente para todas: fortaleza, paciência, humildade, desprendimento, caridade, obediência, desprezo das honras, pobreza, abandono…

Da Eucaristia podemos afirmar outro tanto: é cátedra excelsa de amor e de humildade; nesse divino Dom, podemos fortalecer-nos também nas demais virtudes cristãs. «Na Sagrada Eucaristia e na oração está a cátedra na qual aprendemos a viver, servindo com serviço alegre a todas as almas: a governar, também servindo; a obedecer em liberdade, querendo obedecer; a procurar a unidade no respeito da variedade, da diversidade, da identificação mais íntima»53.

Revela-se especialmente como cátedra para as virtudes que devem cultivar-se diariamente no trabalho e na família, nas situações comuns das pessoas correntes: saber esperar, saber acolher a todos, estar disponível sempre… O silêncio de Jesus sacramentado é sobretudo eloquente para aqueles que, como nós, têm de se santificar nel bel mezzo della strada , atarefados em mil ocupações aparentemente de pouca importância. Do silêncio desse lugar, Ele indica-nos que a vida ordinária nos abre – com a humildade em que decorre – uma oportunidade constante de santificação e de apostolado; que encerra todo o tesouro e a força de Deus, que intervém e dialoga em cada instante connosco, e se interessa até pela queda de um cabelo de uma criatura (cfr. Mt 10, 29).

Contemplando Jesus sacramentado, penetramos na necessidade de nos movermos com rectidão de intenção, de não ter outra vontade senão a de cumprir o querer divino: servir as almas para que cheguem ao Céu. Descobre-se a transcendência de nos darmos aos outros, gastando a própria existência a acompanhar os nossos irmãos os homens, sem ruído, com paciência, discretamente; com a amizade e o afecto manifestados em obras talvez pequenas mas concretas e úteis; com a disponibilidade de tempo e com a largueza de coração que sabe dizer a todos, a cada um, a palavra oportuna, o conselho e o consolo necessários, o comentário doutrinal e a correcção fraterna.

«Ele baixa-se a tudo, admite tudo, expõe-se a tudo – a sacrilégios, a blasfémias, à frieza da indiferença de tantos – com o fim de oferecer, ainda que seja a um único homem, a possibilidade de descobrir o bater de um Coração que salta no Seu peito chagado»54.

Entregar-se ao serviço dos outros

Perante a presença real de Jesus no Sacrário, compreende-se a eficácia inefável de «ocultar-se e desaparecer», que não se deixa cair no dolce far niente , isolar-se dos outros, deixar de influir no ambiente e no desenrolar dos acontecimentos no próprio meio familiar, profissional ou social. Traduz-se, pelo contrário, em dar toda a glória a Deus e respeitar a liberdade dos outros; e também em os aproximar do Senhor não com ruído humano, mas com a “coacção” da entrega pessoal e da virtude alegre e generosa.

Olhando para o Senhor sacramentado, persuadimo-nos da conveniência de “nos fazermos pão”; de que os outros possam alimentar-se do que é nosso – da nossa oração, do nosso serviço, da nossa alegria – para avançar no caminho da santidade. Convencemo-nos da necessidade do «sacrifício escondido e silencioso»55, sem espectáculo nem gestos pomposos. «Jesus ficou na Eucaristia por amor…, por ti.

– Ficou, sabendo como o receberiam os homens…, e como o recebes tu.

– Ficou, para que o comas, para que o visites e lhe contes as tuas coisas e, ganhando intimidade com Ele na oração junto ao Sacrário e na recepção do Sacramento, te enamores cada dia mais, e faças que outras almas – muitas! – sigam o mesmo caminho»56.

Na Eucaristia, Jesus mostra com eloquência divina que, para ser como Ele, há que entregar-se aos outros completamente e sem regateios, até fazer do nosso caminhar um serviço constante. «Chegarás a ser santo se tiveres caridade, se souberes fazer as coisas que agradem aos outros e que não sejam ofensa a Deus, mesmo que a ti te custem»57.

Ambo tamen credens atque confitens, peto quod petivit latro pœnitens

Ao ritmo da contrição

Voltemos à cena do Calvário, para escutar o pedido do bom ladrão, que tanto comovia S. Josemaria quando meditava o Adoro te devote . «Tenho repetido muitas vezes aquele verso do hino eucarístico: peto quod petivit latro pœnitens , e sempre me comovo: pedir como o ladrão arrependido!

Reconheceu que, ele sim, merecia aquele castigo atroz… E com uma palavra, roubou o coração de Cristo e abriu , para si, as portas do Céu»58.

Especialmente nos seus últimos anos, face às dificuldades da Igreja, o nosso Padre acolhia-se com toda a alma à misericórdia divina, pedindo esta compreensão, este amor de Deus para si e para todos. Não exibia méritos, que pensava não ter; «o Senhor foi quem fez tudo», assegurava convencido. Não apelava a motivos de justiça para conseguir do Senhor a ajuda na tribulação e na prova; buscava o refúgio da sua compaixão. Assim, da fé em Cristo passava à contrição: à conversão constante e alegre. Com esta lógica actuava o nosso Padre, bem seguro de que cor contritum et humiliatum, Deus, non despicies ( Sal 50 [51], 19 ), Deus não despreza um coração contrito e humilhado.

Agora, com a sua intercessão no Céu, temos de assimilar esse ritmo de fé e de dor que constitui o sinal inequívoco da vida interior autêntica. A intimidade eucarística reforçará a nossa esperança, a nossa confiança na misericórdia do Senhor, de muitos modos; entre outros, ajudando-nos a descobrir as nossas misérias para que as apresentemos ao pé da Cruz e assim, com a luta contra os defeitos, levantemos vitoriosa a Cruz do Senhor sobre as nossas vidas, sobre as nossas debilidades.

Confiar na misericórdia divina

Dimas encontrou a misericórdia e a graça divinas transformando aquela actividade que antes era a sua “profissão”: assaltar e roubar outros. Na cruz, pela fé e uma dor sincera, “assaltou” Cristo, “roubou-lhe” o coração e entrou com Ele na glória. O nosso Padre transmitiu-nos o «amoroso costume de “assaltar” Sacrários»59; ensinou-nos, sobretudo, a unir o nosso trabalho santificado à oferta que Jesus faz de Si mesmo na Missa e a trabalhar assim com a força que brota do seu sacrifício.

A experiência do latro pœnitens é também a nossa: da misericórdia do Senhor esperamos a nossa santificação. Ao receber o seu perdão e a sua graça, reflectimos estes dons na fraternidade com que tratamos todos, pois a santidade, a perfeição, está directamente relacionada com a misericórdia. O mesmo Senhor expressa-o claramente: «Sede, pois, vós perfeitos como é perfeito o vosso Pai celeste» ( Mt 5, 48); e «sede misericordiosos como o vosso Pai é misericordioso» ( Lc 6, 36).

Mas temos de ter sempre presente que a «a misericórdia não se limita a uma simples atitude de compaixão; a misericórdia identifica-se com a superabundância da caridade que, ao mesmo tempo, traz consigo a superabundância da justiça»60. Traduz-se simplesmente em dar-se e dedicar-se aos outros, como o bom samaritano: sem descuidar os próprios deveres e, ao mesmo tempo, decidir-se a sacrificar a comodidade e a prescindir de pequenos – ou não tão pequenos – planos e interesses pessoais. «Misericórdia significa manter o coração em carne viva, humana e divinamente repassado por um amor rijo, sacrificado e generoso»61.

Entendida desse modo, esta disposição activa de ânimo pode ser aplicada analogicamente a Cristo, Deus e Homem. Isto seria absurdo se referíssemos a nossa misericórdia a Deus em si mesmo, mas não o é em relação à Humanidade de Jesus, pois o próprio Senhor nos disse que considera dirigida a Ele a misericórdia usada para com os seus irmãos os homens, mesmo os mais pequenos (cfr. Mt 25, 40). Podemos, igualmente, viver a misericórdia de algum modo – como desagravo – para com a Humanidade do Senhor oculta no Sacrário, onde se nos apresenta como «o Grande Solitário»: é um profundo acto de amor e de piedade ir visitá-lo ao «cárcere de amor», onde ficou «voluntariamente encerrado»62 porque quis ficar sempre connosco, até ao fim.

Quantas possibilidades se nos abrem para “o tratar bem”, para o acompanhar, para lhe manifestar carinho! A tal conduta nos animava S. Josemaria: «Jesus Sacramentado, que nos esperas amorosamente em tantos Sacrários abandonados, peço-te que nos dos nossos Centros te tratemos sempre “bem”, rodeado do nosso carinho, da nossa adoração, do nosso desagravo, do incenso das pequenas vitórias, da dor das nossas derrotas»63.

Plagas, sicut Thomas, non intueor, Deum tamen meum te confiteor

A atitude inicial de Tomé

Oito dias depois da Ressurreição de Jesus, no Cenáculo, Tomé vê o Senhor, que lhe mostra as chagas e lhe diz: «Chega aqui o teu dedo e vê as Minhas mãos, aproxima a tua mão e chega com ela ao Meu lado; e não sejas incrédulo, mas crente» ( Jo 20, 27). Nós, na Eucaristia, encontramo-nos também realmente diante do seu corpo glorioso, ainda que em estado de vítima – Christus passus – pela separação sacramental do corpo e do sangue. «O sacrifício eucarístico torna presente não só o mistério da paixão e morte do Salvador, mas também o mistério da ressurreição, que dá ao sacrifício a sua coroação. Por estar vivo e ressuscitado é que Cristo pode tornar-se “pão da vida” ( Jo 6, 35.48), “pão vivo” ( Jo 6, 51)»64.

Podemos pensar que o Apóstolo Tomé, quando prenderam Jesus em Getsemani e depois – perante o “fracasso humano” de Cristo –, se sentiria desconcertado, defraudado, sem esperança. Talvez a sua quebra de ânimo fosse especialmente emotiva e por isso lhe custasse, mais que aos outros dez, aceitar a realidade da Ressurreição do Senhor. Tornou-se-lhe particularmente difícil tornar a acreditar em Jesus, esperar de novo n´Ele, encher-se outra vez de sólido entusiasmo; em poucas palavras: amá-lo e sentir-se amado por Ele. E pôs condições.

Deus revelou-se progressivamente, e o curso histórico da Revelação, de alguma maneira, traduz-se a nível pessoal no itinerário de fé de cada um. Qualquer novo passo nesse caminho significa um abandono interior, também “novo”, que é mais custoso, que obriga a uma maior identificação com Cristo, morrendo cada vez mais para o próprio eu. E convém-nos estar prevenidos, porque a reacção de S. Tomé pode também manifestar-se na nossa alma: uma atitude de incredulidade, de resistência a crer sem vacilação, a crer mais: não estranhemos nem nos assustemos. Para superar este inconveniente, repitamos com mais fé junto do Sacrário e noutras ocasiões: Dominus meus et Deus meus! ( Jo 20, 28).

Os Apóstolos acreditavam em Jesus como profeta e enviado de Deus; como Messias e Salvador de Israel; como Filho de Deus. Mas tinham feito uma ideia inexacta de como se realizaria essa salvação e das formas que o Reino do Mestre iria assumir. Eles não entenderam totalmente os anúncios que Cristo referiu, pelo menos três vezes, sobre a sua paixão e morte. Depois, em parte pela sua indolência e em parte por toda a tragédia da paixão, os acontecimentos colocaram-nos violentamente perante o plano de Deus, e todos naufragaram excepto S. João. E custou-lhes, de modo particular a S. Tomé, aceitar a realidade gloriosa de Cristo ressuscitado. Mas as diversas aparições do Senhor resolveram as suas reservas, e o próprio Tomé superou a sua fraqueza espiritual, como acabo de mencionar, com um maravilhoso acto de fé e de amor: Dominus meus et Deus meus! Na hora das provações

Não excluamos em nós, por diversos motivos, uma resistência inicial em crer, pela acumulação de experiências negativas; pela adversidade de um ambiente anti-cristão; ou por «um encontro inesperado com a Cruz»65, que se nos mostra mais concreta e cruel: «Porque Deus nos pede a todos uma abnegação plena, e às vezes o pobre homem de barro – de que estamos feitos – revolta-se; sobretudo, se tivermos deixado que o nosso eu se intrometa no trabalho, que deve ser para Deus»66.

Este tipo de situações superamo-las sempre, com a graça divina, se as encararmos como são: convites para nos aproximarmos mais de Deus, O conhecer melhor e O amar mais, e servi-Lo com mais eficácia. O meio mais seguro para as superar é-nos facilitado pelo encontro com Cristo crucificado e glorioso; com Jesus sacramentado. De modo muito especial, então, é chegado o momento de ir ao Sacrário falar com o Senhor, que nos mostra as suas chagas como credenciais do seu amor; e, com fé nessas chagas que fisicamente não contemplamos, descobriremos com os apóstolos a necessidade do Mistério de que «o Messias sofresse essas coisas, para entrar na Sua glória» ( Lc 24, 16); aceitaremos mais claramente a Cruz como um dom divino, entendendo assim aquela exortação do nosso Padre: «empenhemo-nos em ver a glória e a felicidade ocultas na dor».67

Às chagas de Cristo

Insisto, filhas e filhos meus, não nos devemos nem surpreender nem assustar se nos encontrarmos em situações especialmente duras, nas quais o “claro-escuro” da fé nos mostra mais explicitamente a sua dimensão de obscuridade; ocasiões em que talvez seja mais difícil reconhecer Cristo, e até mesmo divisar por onde passa o caminho querido por Deus. Este tipo de provas interiores pode, por vezes, dever-se à miséria humana, à falta de correspondência; mas com frequência não é assim, faz parte do plano querido por Deus para nos identificarmos com Jesus Cristo, para nos santificarmos.

Chegou o momento de “ir”, como fez o Apóstolo Tomé, às chagas de Cristo. Assim no-lo explica S. Josemaria: «Não vos esqueçais que estar com Jesus é seguramente encontrar-se com a sua Cruz. Quando nos abandonamos nas mãos de Deus, é frequente que Ele permita que saboreemos a dor, a solidão, as contradições, as calúnias, as difamações, os escárnios, por dentro e por fora, porque quer conformar-nos à sua imagem e semelhança e permite também que nos chamem loucos e que nos tomem por néscios.

É a hora de amar a mortificação passiva que vem – oculta, ou descarada e insolente – quando não a esperamos (…).

Quando admiramos e amamos deveras a Santíssima Humanidade de Jesus, descobrimos, uma a uma, as suas Chagas. E nesses tempos de expiação passiva, penosos, fortes, de lágrimas doces e amargas que procuramos esconder, sentiremos necessidade de nos meter dentro de cada uma daquelas Feridas Santíssimas: para nos purificarmos, para nos enchermos de alegria com esse sangue redentor, para nos fortalecermos (…).

Ide como vos comover mais; descarregai nas Chagas do Senhor todo esse amor humano… e esse amor divino, que isto é desejar a união, sentir-se irmão de Cristo, ser seu consanguíneo, filho da mesma Mãe, porque foi Ela que nos levou até Jesus»68.

Não só em momentos de provação, mas sempre, procuremos mais perseverantemente o encontro com Cristo ressuscitado, que nos espera no Altar e no Sacrário. Com quanta confiança e segurança devemos recorrer à oração diante de Jesus sacramentado, para pedir, com a audácia das crianças, por tantas necessidades e intenções! Tomé apóstolo pôs esse encontro como condição para crer; nós, agora, pela graça de Deus, temos a certeza de que nesse estar diante de Jesus se resolvem todas as nossas dificuldades espirituais. Não contemplamos nem a humanidade nem a divindade do Senhor, mas cremos firmemente, e vamos a Ele, que «nos vê, nos ouve, nos espera e nos preside no Sacrário, onde está realmente presente, oculto nas espécies sacramentais (…), que pergunta: que se passa contigo? Comigo… E, logo a seguir, luz ou, pelo menos, aceitação e paz»69. Assim seremos fiéis e sentiremos o impulso e a força para dizer a toda a gente, sem respeitos humanos, com naturalidade e com urgência, que encontrámos Cristo, que o tocámos, que está vivo! Saborearemos, como S. Josemaria, a verdade e a felicidade de que Iesus Christus heri et hodie, ipse et in sæcula! ( Hb 13, 8).

Fac me tibi semper magis credere, in te spem habere, te diligere

Almas de Eucaristia: fé, amor, esperança

O crescimento da vida espiritual está directamente relacionado com o crescimento da devoção eucarística. Com que força o pregou o nosso Padre! Como fruto da sua própria experiência pessoal, pede-nos a cada uma e a cada um: «Sê alma de Eucaristia! – Se o centro dos teus pensamentos e esperanças está no Sacrário, filho, que abundantes os frutos de santidade e de apostolado» 70.

O desejo de santidade e o zelo apostólico encontram na contemplação eucarística a sua direcção e o seu fundamento mais sólidos. «Não compreendo como se possa viver cristãmente sem sentir a necessidade de uma amizade constante com Jesus na Palavra e no Pão, na oração e na Eucaristia. E entendo perfeitamente que, ao longo dos séculos, as sucessivas gerações de fiéis tenham vindo a concretizar essa piedade eucarística»71.

Quando Deus se aproxima de uma alma para atraí-la a Si, a pessoa deve preparar-se com mais actos de fé, de esperança e de amor, deve intensificar a sua vida teologal, enriquecendo-a com mais oração, mais penitência, maior frequência dos sacramentos, e uma vivência eucarística mais intensa. O nosso Padre sempre agiu deste modo, sobretudo desde que o Senhor começou a manifestar-se na sua alma, com aqueles pressentimentos de amor. Já no Seminário de S. Carlos passava noites inteiras em oração, acompanhando o Senhor no Sacrário. À medida que os dias passavam, dava-se conta da profunda urgência de estar mais com Ele.

O caminho cristão é senda essencialmente teologal: fruto do conhecimento sobrenatural, da força do Bem infinito que é a Trindade, da comunhão na caridade. E a adoração eucarística contém a sua expressão mais sublime, porque se dirige a Deus tal como Ele decidiu ficar mais ao nosso alcance. Por sua vez e pelo mesmo motivo, apresenta-se-nos como o melhor meio para crescer nessas três virtudes. O nosso Padre pedia-as todos os dias, exactamente na Santa Missa, quando elevava Jesus Sacramentado na Hóstia consagrada e no Cálice com o Seu Sangue: adauge nobis fidem, spem, caritatem!

A fé, a esperança e a caridade: virtudes sobrenaturais, que só Deus pode infundir nas almas e só Ele pode intensificar. Contudo, isto não significa que a recepção destes dons divinos dispense a colaboração pessoal, porque em todos os seus planos o Omnipotente jamais impõe o seu amor: «... não quer escravos, mas sim filhos, e, portanto, respeita a nossa liberdade»72. Por este motivo, normalmente, faz com que a sua acção inefável seja acolhida e acompanhada pelo esforço da criatura: maravilhemo-nos com a importância que Ele nos atribui.

Delicadezas do Senhor

Podemos descobrir que o ocultamento de Jesus Cristo nas espécies eucarísticas, que corresponde às exigências da economia sacramental, também corresponde precisamente ao desejo divino de não forçar a liberdade humana. Ocultando-se, o Senhor convida-nos a procurá-lo, enquanto Ele vem ao nosso encontro, «se faz encontrar» 73. Quantas vezes isto aconteceu com S. Josemaria, que, sem se dar conta, sem qualquer intenção expressa, dava consigo “remoendo” palavras das Escrituras que traziam luz a certos aspectos do seu trabalho, que lhe transmitiam a vontade de Deus, que respondiam a problemas e dúvidas que tinha apresentado ao seu Senhor! «Conta o Evangelista que Jesus, depois de ter operado o milagre, quando o querem coroar rei, se esconde.

– Senhor, que nos fazes participar no milagre da Eucaristia, pedimos-te que não te escondas, que vivas connosco, que te vejamos, que te toquemos, que te sintamos, que queiramos estar sempre junto de Ti, que sejas o Rei das nossas vidas e dos nossos trabalhos» 74.

A vida teologal, de fé, esperança e caridade, pela sua própria natureza tende sempre para mais, para um crescimento da correspondência: não se conforma com o que faz. Sinal de amar a Deus verdadeiramente é, portanto, julgar que O amamos pouco, que devemos aumentar a nossa relação diária com Ele. Só quem O ama pouco crê que já ama muito. O nosso Padre interpela-nos com firmeza: «Dizes que... não podes fazer mais?! – Não será que... não podes fazer menos?»75. Respondamos recorrendo uma vez mais a Cristo, Senhor nosso, escondido no Sacrário: «fac me tibi semper magis credere, in te spem habere, te diligere!».

Este tender para “mais” – como toda a vida cristã – encontra na Eucaristia a sua raiz e o seu centro. Porque Jesus eucarístico é o ponto mais alto deste “crescendo” da dádiva de Deus à Humanidade, e – ao identificar-nos com Ele – transmite-nos esse apelo para o “crescendo” na entrega pessoal, “suaviter et fortiter”, como se nos levasse pela mão. Assim explicava S. Josemaria: «Começaste com a tua visita diária... – não me admira que me digas: Começo a amar com loucura a luz do Sacrário»76. E, diante do Tabernáculo, supliquemos com fervorosa piedade a Jesus que nos conceda a todos, cada vez mais, uma «fé operativa», uma «caridade trabalhosa», e uma «esperança constante». (1 Ts 1,3).

O memoriale mortis Domini, panis vivus, vitam præstans homini

Memorial do sacrifício da Cruz

A Eucaristia é memorial da morte do Senhor e banquete em que Cristo nos dá como alimento o seu corpo e o seu sangue. «A divina sabedoria – ensina Pio XII – encontrou um modo admirável para tornar visível o sacrifício do nosso Redentor por meio de sinais exteriores, que são símbolos de morte. Com efeito, graças à transubstanciação do pão no corpo e do vinho no sangue de Cristo, assim como está realmente presente o seu corpo, também está o seu sangue; e deste modo as espécies eucarísticas, sob as quais se encontra presente, simbolizam a cruenta separação do corpo e do sangue. Deste modo, a celebração da sua morte, que realmente aconteceu no Calvário, repete-se em cada um dos sacrifícios do altar; visto que, por meio dos diversos sinais, Cristo se transforma e se apresenta como vítima»77.

João Paulo II, ao expor esta doutrina, escreve: «A Missa torna presente o sacrifício da cruz; não é mais um, nem o multiplica. O que se repete é a celebração memorial, a “exposição memorial” ( memorialis demonstratio ), de modo que o único e definitivo sacrifício redentor de Cristo se actualiza incessantemente no tempo. Portanto, a natureza sacrificial do mistério eucarístico não pode ser entendida como algo isolado e independente da cruz ou com uma referência apenas indirecta ao sacrifício do Calvário»78.

A Santa Missa nunca fica, portanto, em simples recordação do acontecimento salvífico do Gólgota, mas actualiza-o sacramentalmente. Todo o sacramento realiza o que significa; deste modo a Missa significa e torna presente o mesmo sacrifício de Jesus no Calvário. Traz-nos o memorial vivo da Paixão e Morte de Nosso Senhor. «Quando a Igreja celebra a Eucaristia, faz memória da Páscoa de Cristo, e esta torna-se presente: o sacrifício que Cristo ofereceu na cruz uma vez por todas, continua sempre actual»79. No sacrifício da Missa, unimos todas as nossas coisas ao oferecimento com que Jesus Cristo, Cabeça da Igreja, se entregou a Deus Pai, em adoração, acção de graças, em reparação dos pecados da humanidade e súplica por todas as necessidades do mundo.

Centro e raiz da vida espiritual

O nosso Fundador, nas suas catequeses, esforçava-se por explicar a íntima relação existente entre a Última Ceia, a Cruz e a Missa. Numa altura em que, não raras ocasiões, se encobria a essência sacrificial da Eucaristia, punha especial ênfase no valor infinito do Santo Sacrifício. Com palavras acessíveis a todos, comentou numa dessas ocasiões: «Distingo perfeitamente a instituição da Sagrada Eucaristia, que é um momento de manifestação de amor divino e humano, e o Sacrifício no madeiro da Cruz. Na Ceia, Jesus estava passível, ainda não tinha padecido; no Calvário está paciente, sofrendo com gesto de Sacerdote Eterno: Jesus está ali, cravado de ferros, depois de ter santificado o mundo com as suas pegadas, e morre por amor a cada um de nós: todo o seu sangue é o preço da nossa alma, de cada alma»80 .

Com essa imolação, o Senhor concedeu-nos uma redenção eterna (cfr. Hb 9, 12). Este sacrifício «é tão decisivo para a salvação do género humano que Jesus Cristo realizou-o e só voltou ao Pai depois de nos ter deixado o meio para dele participarmos , como se tivéssemos estado presentes. Deste modo, cada fiel pode tomar parte nele, alimentando-se dos seus frutos inexauríveis. Esta é a fé que as gerações cristãs viveram ao longo dos séculos»81.

S. Josemaria soube acolher este legado de fé e vivê-lo profundamente com todas as suas implicações. Seguindo o conselho e o exemplo dos Santos Padres procurou sempre imitar – ao longo de cada dia – o que se celebra na Missa, e assim o aconselhava aos outros: «Que te identifiques com esse Jesus Hóstia que se oferece no altar»82. Sempre se exercitou naquilo que ensinava: a Santa Missa, como centro e raiz da vida espiritual do cristão , constituiu o fundamento de cada um dos seus dias. E soube-o meditar e transmitir à luz da sua contemplação profunda do Mistério eucarístico.

A Missa «é acção divina, trinitária, não humana. O sacerdote que celebra serve o desígnio do Senhor, pondo à sua disposição o seu corpo e a sua voz. Não age, porém, em nome próprio, mas in persona et in nomine Christi, na Pessoa de Cristo e em nome de Cristo.

O amor da Trindade pelos homens faz com que, da presença de Cristo na Eucaristia, nasçam para a Igreja e para a humanidade, todas as graças. Este é o sacrifício que profetizou Malaquias (...). É o Sacrifício de Cristo, oferecido ao Pai com a cooperação do Espírito Santo, oblação de valor infinito, que eterniza em nós a Redenção, que os sacrifícios da Antiga Lei não conseguiam alcançar.

A Santa Missa situa-nos deste modo perante os mistérios primordiais da fé, porque se trata da própria doação da Trindade à Igreja. Compreende-se assim que a Missa seja o centro e a raiz da vida espiritual do cristão. É o fim de todos os sacramentos. Na Santa Missa, a vida da graça encaminha-se para a sua plenitude, que foi depositada em nós pelo Baptismo, e que cresce, fortalecida pela Confirmação»83.

Uma correspondência esforçada

A celebração da Eucaristia deve converter-se, repito, no centro e raiz da vida espiritual de um filho de Deus, porque neste sacramento culmina o sacrifício do Filho de Deus: além de o colocar diante dos nossos olhos e de permitir que o imitemos na nossa resposta quotidiana, concede-nos a graça da Redenção e a possibilidade de nos entregarmos como Ele para glória de Deus e salvação das almas.

Receber dom tão inefável requer a nossa correspondência esforçada, e que nos empenhemos seriamente em nos unirmos – em unir tudo o que é nosso – à oblação de Jesus a Deus Pai. «No Santo Sacrifício do altar, o sacerdote pega no Corpo do nosso Deus e no Cálice com o Seu sangue, e levanta-os sobre todas as coisas da terra, dizendo: “Per Ipsum, et cum Ipso, et in Ipso” – pelo meu amor! Com o meu amor! e no meu amor!

Une-te a esse gesto. Mais ainda, incorpora essa realidade na tua vida»84.

Desejo insistir que o nosso Padre não se limitou a ensinar que a Santa Missa é o centro e a raiz da vida interior: ele também mostrou como corresponder pessoalmente à doação da Trindade no Santo Sacrifício, de modo que a batalha espiritual de cada um girasse realmente em torno da Missa, se nutrisse desse Sacrifício e criasse raízes nesse Holocausto.

Entre outros conselhos, afirmava que lhe era de muito proveito dividir o dia em duas metades: uma para preparar a Missa e a outra para agradecê-la; aproveitava o tempo do repouso nocturno para intensificar o diálogo contemplativo, dando ênfase à sua dimensão eucarística; e, muito especialmente, procurava saborear e dar sentido a cada gesto e a cada palavra dos vários momentos que compõem a celebração eucarística. Unia todo esse exercício – sempre com novos matizes – a expressões de fé, esperança e caridade, a situações e intenções concretas. Quanto nos ajuda a sua homilia “A Eucaristia, mistério de fé e de amor”! 85.

Tudo quanto, com a graça de Cristo – seiva divina – nos chega da raiz eucarística, exige também – já vo-lo disse – esforço da nossa parte. S. Josemaria encoraja-nos neste maravilhoso combate diário: «Luta por conseguir que o Santo Sacrifício do Altar seja o centro e a raiz da tua vida interior, de maneira que toda a jornada se converta num acto de culto – prolongamento da Missa que ouviste e preparação para a seguinte –, que vai transbordando em jaculatórias, em visitas ao Santíssimo, no oferecimento do teu trabalho profissional e da tua vida familiar...»86.

Comunhão com Cristo e unidade da Igreja

No Sacrifício do altar unem-se os aspectos convivial e sacrificial: Cristo, através do sacerdote, oferece-se como Vítima a Deus Pai, e o mesmo Pai no-Lo entrega como alimento. Cristo sacramentado é o «Pão dos filhos» 87. A comunhão do corpo e sangue do Senhor enche-nos de uma graça específica, que produz na alma efeitos análogos aos que o alimento causa no corpo, «tais como sustentar, crescer, reparar e deleitar»88 Contudo, diferentemente do alimento para o corpo, em que o corpo assimila o que come, aqui sucede o contrário: somos nós os assimilados por Cristo ao seu Corpo, transformamo-nos n’Ele. «A nossa participação no corpo e no sangue de Cristo, não leva a outra coisa que não seja o transformarmo-nos n’Aquele que recebemos» 89.

A Eucaristia eleva-se na Igreja como sacramento da unidade, porque ao comermos todos o mesmo Pão, tornamo-nos um só Corpo. A Santa Missa e a Comunhão edificam a Igreja, constroem a sua unidade e a sua força, dão-lhe coesão. «Os que recebem a Eucaristia ficam mais estreitamente unidos a Cristo. Por isso mesmo, Cristo une todos os fiéis num só corpo: a Igreja. A comunhão renova, fortalece e aprofunda esta incorporação na Igreja, já realizada pelo Baptismo. No Baptismo fomos chamados a formar um só corpo (cfr. 1 Cor 12, 13); a Eucaristia realiza esta vocação» 90.

Minhas filhas e meus filhos, quão importante é que nos unamos à Cabeça visível, ao celebrar ou ao participar neste Santo Sacrifício! Todos bem unidos à Cabeça da Igreja universal, ao Papa; vós, a quem preside em cada Igreja particular, aos Bispos e, muito especialmente, a este vosso Padre que o Senhor quis pôr como Cabeça visível e princípio de unidade nesta «partezinha da Igreja» que é a Obra.

Præsta meæ menti de te vivere, et te illi semper dulce sapere

Viver de Cristo

«A carne de Cristo, em virtude da sua união com o Verbo, é vivificante» 91. São Lucas escreve: «Todo o povo procurava tocá-lo, porque saía dele uma virtude que os curava a todos» ( Lc 6,19). Também o Pão eucarístico não é só um pão vivo, é também pão vivificante, que dá a vida divina em Cristo. Ao recebê-lo, cada pessoa pode dizer como S. Paulo: «Eu já não vivo, é Cristo que vive em mim». ( Gal 2, 20).

Præsta meæ menti de te vivere... Esta estrofe convida-nos a que tudo em nós se alimente de viver sempre de Cristo, a assumir uma conduta completamente fiel ao seu amor, a saborear perseverantemente a sua doçura: que o nosso prazer e o nosso “gosto” estejam em Cristo, que vamos para Ele «como o ferro atraído pela força do íman»92.

Este desejo sincero, esta súplica, ajuda muitíssimo a desejar ardentemente e a construir a unidade de vida; por outras palavras: a não ter mais que um Senhor na alma (cfr. Mt . 6, 24); a não procurar mais que uma só coisa (cfr. Lc 10, 42), e a submeter-se totalmente a um só Amor, que é Ele; a querer somente aquilo que Deus quer, e a aceitar as outras coisas porque Deus quer, do modo e na medida em que Ele dispõe; a estar tão identificado com Cristo, que o cumprimento da sua Vontade se revele na criatura como uma característica essencial da própria personalidade. Significa possuir «os mesmos sentimentos de Cristo Jesus» ( Flp 2, 5); e para alcançá-lo, peçamos-lhe, como S. Josemaria: «Que eu veja com os Teus olhos, Cristo meu, Jesus da minha alma»93.

Os cristãos não devem esquecer que, com o Senhor, omnia sancta , tudo é santo; sem Ele, mundana omnia , tudo é mundano. Não nos deixemos enganar pela falta de amor que se esconde por detrás de uma aparência de naturalidade, sugerindo-nos que não enfrentemos com firmeza – por amor – as consequências da fidelidade a Cristo. A nossa relação com Deus só pode construir-se a partir do único modelo que é Cristo; e devemos ver com clareza que a relação de Jesus com Seu Pai brilha pela sua total unidade: Eu e o Pai somos um» ( Jo 10, 30).

Unidade de Vida

A Santa Missa, por si mesma e mais ainda quando se luta para que seja o centro da própria vida interior, tem um poder verdadeiramente unificador da existência humana. Jesus sacramentado, na renovação incruenta do seu sacrifício no Calvário, toma por completo os trabalhos e intenções da pessoa que se une à sua oblação; e recapitula-os na adoração que Ele presta ao Pai, no agradecimento que lhe manifesta na expiação que lhe oferece e na súplica que lhe dirige.

Tal como Cristo, no seu caminhar terreno, recapitulou a história humana desde Adão, e, no seu sacrifício, recapitulou a sua própria vida, assim também no Sacrifício da Missa se unifica tudo o que Deus concede à humanidade e se sintetiza tudo quanto a humanidade pode elevar ao Pai em Cristo, sob o ímpeto do Paráclito. Numa palavra, «a Sagrada Eucaristia (...) resume e realiza as misericórdias de Deus para com os homens»94.

O Santo Sacrifício compendia o que deve ser a nossa conduta: adoração amorosa, acção de graças, expiação, petição; isto é, dedicação a Deus e, por Ele, aos outros. Na Missa deve confluir tudo quanto nos pese e nos angustie, tudo o que nos encha de alegria e de entusiasmo, cada pormenor da vida do dia a dia; temos de ir com as nossas preocupações e com as dos outros, com as do mundo inteiro.

Nas festas do Natal passado, dizia a um grupo de irmãos vossos que não fossem a Belém só com as suas intenções e necessidades, que levassem ao Menino os sofrimentos e as necessidades urgentes de todas as pessoas da Obra, da Igreja, do mundo inteiro. E o mesmo vos aconselho agora a todas e a todos: ide à Missa e apresentai ao Senhor as necessidades urgentes – materiais e espirituais – de todos, tal como Cristo subiu ao Madeiro carregado com os pecados dos homens de todos os tempos. Tentemos subir com Ele e, como Ele, à Cruz, onde intercedeu – e agora intercede nos altares e sacrários desta terra – junto de seu Pai, a fim de obter para cada criatura, com superabundância divina, as graças de que necessita, sem excluir nenhuma.

Recordais que, em 1966, S. Josemaria teve uma experiência muito forte que descreveu assim: «Depois de tantos anos, aquele sacerdote fez uma descoberta maravilhosa: compreendeu que a Santa Missa é um verdadeiro trabalho: “operatio Dei”, trabalho de Deus. E, nesse dia, ao celebrá-la, experimentou dor, alegria e cansaço. Sentiu na sua carne o cansaço de um trabalho divino.

A Cristo também custou esforço a primeira Missa, a Cruz» 95.

Interpretou esse episódio como se Deus tivesse querido premiar o seu esforço de anos para centrar toda a existência no Santo Sacrifício; e, ao mesmo tempo, confirmá-lo no valor sobrenatural desse caminho para alcançar a unidade de vida tão característica do espírito da Obra. Lutemos, dia após dia, para que – façamos o que fizermos – a nossa mente se eleve a Jesus Cristo, para aderirmos aos seus desígnios e também para nos adentrarmos no seu doce saber.

Pie pelicane, Iesu Domine, me immundum munda tuo sanguine

Purificar-se mais e mais

A antiga crença de que o pelicano alimenta as crias com o próprio sangue, fazendo-o brotar do peito ferido com o bico, foi considerada tradicionalmente como um símbolo eucarístico, que procurava exemplificar de algum modo a inseparabilidade dos aspectos sacrificial e convivial da Eucaristia. Com efeito, na Santa Missa «realiza-se a obra da nossa redenção»96, e dá-se-nos a comer o corpo de Cristo e dá-se-nos a beber o seu sangue.

Neste Sacramento, fica patente que o sangue de Cristo redime e, ao mesmo tempo, alimenta e deleita. É sangue que lava todos os pecados (cfr. Mt 26, 28) e torna a alma pura (cfr. Ap 7, 14). Sangue que gera mulheres e homens de corpo casto e de coração limpo (cfr. Zac 9, 17). Sangue que embriaga com o Espírito Santo e que solta as línguas para cantarem e narrarem as «magnalia Dei» ( Act 2, 11), as maravilhas de Deus.

A Eucaristia, por ser o mesmo sacrifício do Calvário, contém em si a virtude de lavar todos os pecados e de conceder todas as graças: da Missa, como do Calvário, brotam os outros sacramentos, que depois nos encaminham para o Holocausto de Jesus Cristo como seu fim último. Mas – dizei-o no apostolado – o sacramento comum, disposto por Deus para a remissão dos pecados mortais não é a Missa, é a Penitência; o sacramento da Reconciliação com Deus e com a Igreja, mediante a absolvição que se segue à confissão plenamente sincera e contrita – diante o sacerdote – de todos os pecados mortais ainda não perdoados directamente neste sacramento97.

Comungar dignamente

Mais ainda, a Eucaristia, precisamente porque é manifestação e comunicação de amor, exige, nos que querem receber o corpo e o sangue do Senhor, uma clara disposição de união a Jesus pela graça. «Pensaste nalguma ocasião como te prepararias para receber o Senhor, se só se pudesse comungar uma vez na vida?

– Agradeçamos a Deus a facilidade que temos para nos aproximarmos dele, mas temos de agradecê-lo preparando-nos muito bem para o receber» 98.

A qualidade e a delicadeza dessa preparação depende, como já antes vos recordava, da sensibilidade e profundidade interior da pessoa, particularmente da fé e do amor a Jesus sacramentado. «Temos de receber Nosso Senhor, na Eucaristia, como aos grandes da terra, melhor!: com adornos, luzes, fatos novos...

– E se me perguntares que limpeza, que adornos e que luzes hás-de ter, responder-te-ei: limpeza nos teus sentidos, um por um; adorno nas tuas potências, uma por uma; luz em toda a tua alma»99.

Naturalmente, não é preciso esperar por ser perfeitos – estaríamos sempre à espera – para receber sacramentalmente o Senhor, nem se deve deixar de assistir à Missa porque falta o sentimento ou porque às vezes surgem distracções. «Comunga. – Não é falta de respeito. – Comunga hoje precisamente, que acabas de sair desse laço.

– Esqueces que Jesus disse: Não é necessário o médico para os sãos mas para os enfermos»?100.

Menos ainda se deve deixar de receber a Sagrada Comunhão, pelo facto de a frequência na recepção deste Sacramento poder parecer que não produz em nós o efeito que seria de esperar da generosidade divina. «Quantos anos a comungar diariamente! – Outro seria santo – disseste-me – e eu, sempre na mesma!

– Filho – respondi-te – continua com a Comunhão diária, e pensa: que seria de mim, se não tivesse comungado?»101.

O cristão deve antes raciocinar com o pensamento de que essa frequência, já antiga na Igreja, é sinal de um amor autêntico, que nem as misérias próprias podem apagar. «Alma de apóstolo: essa intimidade de Jesus contigo – tão junto d’Ele, tantos anos! – Não te diz nada?»102.

Quando surgirem esses argumentos falaciosos, ou outros semelhantes, é o momento de assumir mais do que nunca, com agradecimento e confiança em Jesus, a atitude do centurião, que repetimos na Santa Missa: «Domine, non sum dignus!». Não podemos esquecer que, perante a majestade e a perfeição de Cristo, Deus e Homem, nós somos mendigos que nada têm, que estamos manchados com a lepra da soberba, que nem sempre vemos a mão de Deus no que nos acontece e que, noutras ocasiões, ficamos paralisados perante a sua Vontade. Mas tudo isto não justifica a atitude de nos retrairmos; deve-nos conduzir, pelo contrário, a repetir muitas vezes, seguindo o exemplo do nosso Padre: «eu quisera, Senhor, receber-Vos com aquela pureza, humildade e devoção...»

Cuius una stilla salvum facere totum mundum quit ab omni scelere

Dar a conhecer a eficácia da Eucaristia

Com estas palavras menciona-se de novo essa característica, tão própria da Eucaristia: a sua “superabundância”, o “excesso” de amor divino que nos foi concedido e continua a ser-nos oferecido constantemente. A estrofe do hino eucarístico refere-se à dimensão de expiação deste Sacramento: bastava uma gota do sangue do Homem-Deus para apagar todos os pecados da humanidade. Mas quis derramá-lo todo. «Um dos soldados trespassou-Lhe o lado com uma lança e imediatamente saiu sangue e água» ( Jo 19, 34). O sangue, entre os povos antigos, e de certo modo também hoje, é sinal de vida. Cristo decidiu não poupar nada do seu sangue, também como manifestação da sua plena vontade de nos comunicar toda a sua Vida.

Contemplar a entrega total de Jesus por nós, considerar uma vez mais que «não é possível separar em Cristo o seu ser de Deus-Homem e a sua função de Redentor»103, anima-nos a sermos conscientes de que nós não podemos contentar-nos em nos conduzirmos pessoalmente como almas de Eucaristia: temos de animar os outros a que também tenham essa determinação.

Não basta que cada um, cada uma, de nós procure e fale com o Senhor na Eucaristia; devemos conseguir “contagiar” – no nosso trabalho apostólico – quantos mais melhor, para que também desejem e cultivem essa amizade inigualável. «Amai muitíssimo Jesus sacramentado, e procurai que muitas almas o amem: só se introduzis esta preocupação nas vossas almas, sabereis ensiná-la aos outros, porque dareis o que viverdes, o que tiverdes, o que fordes»104.

Diante da triste ignorância que há, inclusivamente entre muitos católicos, pensemos, minhas filhas e meus filhos, na importância de explicar às pessoas o que é a Santa Missa e quanto vale, com que disposições se pode e se deve receber o Senhor na comunhão, que necessidade nos impele a ir visitá-lo nos sacrários, como se manifesta o valor e o sentido da «urbanidade da piedade»105.

Aí se abre um caminho inesgotável e fecundíssimo para o apostolado pessoal, que dará como fruto, por bênção do Senhor, muitíssimas vocações. Assim no-lo repetiu o nosso queridíssimo Padre desde o princípio, também com o seu comportamento diário. «Para cumprir esta Vontade do nosso Rei Cristo» (o nosso Padre refere-se com estas palavras à extensão da Obra pelo orbe), «é preciso que tenhais muita vida interior: que sejais almas de Eucaristia, viris, almas de oração. Porque só assim vibrareis com a vibração que o espírito da Obra exige»106.

Amar a mortificação e a penitência

Para nos convertermos realmente em almas de Eucaristia e em almas de oração, não se pode prescindir da união habitual com a Cruz, também mediante a mortificação procurada ou aceite. D. Álvaro deixou escrito que, certa vez, o nosso Padre perguntava a um grupo de filhos seus: «Que havemos de fazer para ser apóstolos no Opus Dei, como o Senhor quer?». E respondeu imediatamente, com energia e com firmíssimo convencimento: «levar Cristo crucificado dentro de nós! (...). O Senhor escuta as petições das almas mortificadas e penitentes»107. D. Álvaro tirava em seguida a conclusão, que aplicava a si próprio e a todos: «Considerai que, para ser fiéis ao compromisso de corredimir, temos de nos identificar pessoalmente com Nosso Senhor Jesus Cristo, mediante a crucifixão das nossas paixões e concupiscências na alma e no corpo (cfr. Gal. 5, 24). Este é o divino “paradoxo” que tem de se renovar em cada um: “Para Viver é preciso morrer” ( Caminho, n. 187)»108.

Precisamente no sacramento do Sacrifício do Filho de Deus, obtemos a graça e a força para nos identificarmos com Cristo na Cruz. Não duvidemos: a origem e a raiz da nossa vida de mortificação encontram-se na devoção eucarística. Só estaremos em condições de afirmar que somos autênticas almas de Eucaristia, se vivermos de verdade – cum gaudio et pace – cravados com Cristo na Cruz; se sabemos «sujeitar-nos e humilharmo-nos, pelo Amor», se «os nossos pensamentos, afectos, sentidos e potências, palavras e obras», tudo, “estiver bem atado”, pelo amor à Virgem, à Cruz do seu Filho»109. Uma alma de Eucaristia é necessariamente, sempre e ao mesmo tempo, uma alma sacerdotal; e de modo concreto, se a criatura se consome em desejos de reparar e de sacrificar. Então encerra uma alma «essencialmente, totalmente, eucarística»110 .

Quando tomamos a sério que a Missa é «a nossa Missa, Jesus», porque Jesus a celebra com cada um de nós, porque cada um faz de si uma oblação a Deus Pai unida à de Cristo, então dura as vinte e quatro horas do dia. «Amai muito ao Senhor. Tende ânsias de reparação, de uma maior contrição. É necessário desagravá-Lo, primeiro por nós mesmos, como o sacerdote faz antes de subir ao altar. E nós, que temos alma sacerdotal, convertemos o nosso dia numa missa, muito unidos a Cristo sacerdote, para apresentar ao Pai uma oblação santa, que repare pelas nossas culpas pessoais e pelas de todos os homens (...). Tratai-me bem o Senhor, na Missa e durante todo o dia»111.

Iesu, quem velatum nunc aspicio, / oro, fiat illud quod tam sitio, / ut te revelata cernens facie, /visu sim beatus tuæ gloriæ

Fome de ver o rosto de Cristo

O Adoro te devote conclui com esta estrofe, que se poderia resumir assim: Senhor, quero ver-te! Conclusão bem lógica, porque a Eucaristia, «penhor da glória futura»112, concede-nos uma antecipação da vida definitiva. «A Eucaristia é verdadeiramente um pedaço de céu que se abre sobre a terra; é um raio de glória da Jerusalém celeste, que atravessa as nuvens da nossa história e vem iluminar o nosso caminho»113.

Este tesouro central da Igreja antecipa a eternidade, porque nos converte em comensais da “Ceia do Cordeiro”, onde os bem-aventurados se saciam da visão de Deus e do seu Cristo (cfr. Ap. 19, 6-10). Nós conseguimos já, pela graça de Deus, acesso a essa mesma realidade, embora não de modo pleno: apenas imperfeitamente (cfr. 1. Cor. 13, 10-12). Com o dom do Sacramento é-nos aumentada e consolidada a vida nova conferida com o Baptismo, que é chamada à sua perfeição na glória.

A recepção de Jesus na Sagrada Comunhão obtém-nos serenidade ante a morte e ante a incerteza do juízo, porque Ele assegurou: «Quem come a Minha carne e bebe o Meu sangue tem a vida eterna, e Eu o ressuscitarei no último dia» ( Jo 6, 54). «Quem se alimenta de Cristo na Eucaristia não precisa de esperar o Além para receber a vida eterna: já a possui na terra , como primícias da plenitude futura, que envolverá o homem na sua totalidade. De facto, na Eucaristia recebemos a garantia também da ressurreição do corpo no fim do mundo»114. A fé e a esperança eucarísticas afastam de nós muitos temores.

A Sagrada Eucaristia é «a acção mais sagrada e transcendente que o homem, por graça de Deus, pode realizar nesta vida. Comungar o Corpo e o Sangue do Senhor é, de certo modo, desligar-nos dos laços de terra e de tempo, para estar já com Deus no Céu, onde o próprio Cristo enxugará as lágrimas dos nossos olhos e onde não haverá morte, nem pranto, nem gritos de fadiga, porque o mundo velho já terá passado (cfr. Ap 21, 4)»115.

Este Sacramento situa-se, por assim dizer, no limiar entre esta vida e a outra, não apenas quando se administra aos moribundos em forma de viático; mas também mais propriamente porque contém Christus passus , já glorioso, de modo que participa na ordem sacramental da condição desta vida, enquanto substancialmente pertence já à outra. Também por isso, a piedade eucarística nos tornará cada vez mais Opus Dei, impelindo-nos a que nos comportemos como contemplativos no meio do mundo, porque caminhamos amando na terra e no Céu: «não “entre” o Céu e a terra, porque somos do mundo. No mundo e no Paraíso simultaneamente! Esta seria como que a fórmula para exprimir como temos de compor a nossa vida, enquanto estivermos “in hoc sæculo”»116.

Penhor da vida eterna

O plano salvífico de Deus incoa-se nesta etapa terrena, que é “penúltima”, e consuma-se na que há-de vir, que é eterna117. Assim a fé encerra certa incoação do conhecimento face a face, uma incoação da visão gloriosa e beatífica. Na Eucaristia, tender para a glória apoia-se sobretudo no amor que nasce da intimidade. A alma eucarística anseia adorar abertamente a Quem já adora oculto no Pão, porque a intimidade insistente com um amor escondido gera um desejo irrefreável de O possuir abertamente. «Convive com a Humanidade Santíssima de Jesus... E Ele porá na tua alma uma fome insaciável, um desejo “louco” de contemplar a Sua Face»118.

Esta foi sempre a impaciência dos santos, aquela que S. Josemaria guardava no seu coração. «Os que se amam procuram ver-se. Os enamorados só têm olhos para o seu amor. Não é lógico que seja assim? O coração humano sente esses imperativos. Mentiria se negasse que é enorme a minha ânsia de contemplar a face de Jesus Cristo. “Vultum tuum, Domine, requiram” ( Sl 26, 8), procurarei, Senhor, o teu rosto. Encanta-me fechar os olhos, e pensar que chegará o momento, quando Deus quiser, em que o poderei ver, não “como num espelho, e sob imagens obscuras... mas face a face” (1 Cor 13, 12). Sim, filhos, “o meu coração está sedento de Deus, do Deus vivo: quando virei e verei a face de Deus?” ( Sl 41, 3)»119

A devoção eucarística irá comunicando e aumentando em nós essa ânsia, até converter o estar com Cristo na única coisa que importa, sem que isto nos aparte deste mundo; pelo contrário, amá-lo-emos mais apaixonadamente, com o nosso coração unido estreitamente ao Coração de Jesus Cristo. A intimidade, o trato com o Senhor na Eucaristia, irá imprimindo vigorosamente em nós a convicção de que a felicidade não está nestes ou naqueles bens da terra, que envelhecem e desaparecem; a felicidade está em permanecer para sempre com Ele, porque a felicidade é Ele, a quem já possuímos agora como «tesouro infinito, pérola preciosíssima» neste Sacramento120. «Quando dava a Sagrada Comunhão, aquele sacerdote tinha vontade de gritar: aí te entrego a Felicidade!»121.

A Santíssima Virgem, mulher eucarística

Com esta invocação – «mulher eucarística» –, João Paulo II propôs à Igreja o exemplo de Maria como “escola” e “guia” para aprender a maravilhar-nos – que significa acolher, adorar, agradecer... – ante o mistério da Eucaristia122. Entendemo-lo muito bem à luz da fé, como aconteceu ao nosso Padre, que nos fazia considerar que na Santa Missa, «de algum modo, intervém a Santíssima Virgem, pela íntima união que tem com a Trindade Beatíssima, porque é Mãe de Cristo, da sua Carne e do seu Sangue, Mãe de Jesus Cristo, perfeito Deus e perfeito Homem. Jesus Cristo, ao ser concebido nas entranhas de Maria Santíssima sem intervenção de varão, mas unicamente pelo poder do Espírito Santo, tem o mesmo sangue de sua Mãe. E é esse Sangue o que se oferece no sacrifício redentor, no Calvário e na Santa Missa»123.

Maria, ao pé da Cruz, uniu o seu sacrifício interior – «olhai e vede: haverá dor semelhante à minha dor?» ( Lm 1, 12) – ao do seu Filho, cooperando com a Redenção no Calvário. Ela própria, «presente com a Igreja, e como Mãe da Igreja, em cada uma das celebrações eucarísticas»124, coopera com o Filho em difundir no mundo – Medianeira de toda a graça! – a infinita força santificadora do Santo Sacrifício que só Jesus cumpre.

Filhas e filhos meus, se de algum modo nos comparámos com Dimas, o bom ladrão, e com o Apóstolo Tomé, como não olhar para Maria para conhecer e querer mais a Jesus sacramentado, para aprender d’Ele e imitá-Lo, para «O tratar bem»? Nessa tarefa pessoalíssima, que de modo incessante nos renovará interiormente e nos encherá de desejos de santidade e apostolado, ajudemo-nos com a contemplação dos mistérios do Rosário, desde a Anunciação, quando vemos como a Virgem acolhe incondicionalmente no seu seio puríssimo o Verbo incarnado, até à sua glorificação, quando Deus a recebe em corpo e alma na glória, e a coroa como Rainha, Mãe e Senhora nossa.

«A Jesus sempre se vai e se “torna a ir” por Maria»126. Peçamos à nossa Mãe que nos leve sempre pela mão, e especialmente neste Ano da Eucaristia para que constantemente digamos ao Senhor sacramentado, com as palavras e as obras: «Adoro-

-Te, amo-Te!» Adoro te devote! E quando o fizermos, escutemos o nosso queridíssimo Padre, que nos insiste: «invocai Maria e José, porque de alguma maneira estarão presentes no Sacrário, como o estiveram em Belém e em Nazaré (...). Não vos esqueçais!»126.

Com todo o afecto vos abençoa

o vosso Padre

+ Javier

Roma, 6 de Outubro, segundo aniversário da canonização de S. Josemaria

1 Concílio Vaticano II, Decr. Presbyterorum ordinis , n. 5.

2 São Josemaria, Cristo que passa , n. 87. Cfr. Concílio Vaticano II, Const. dogm. Lumen gentium , n. 11; Decr. Presbyterorum ordinis , n. 14.

3 Concílio de Trento, ses. XIII, Decreto sobre a Sagrada Eucaristia , can. 1 (Denz. 1651)

4 Cfr. Ibid., can. 2 (Denz.1652).

5 S. Josemaria, Caminho, n. 538

6 S. Josemaria, Notas tiradas numa meditação, 14-IV-1960.

7 S. Josemaria, Cristo que passa , n. 83.

8 Cfr. Ibid., n.84.

9 S. João Crisóstomo, Homilias sobre o evangelho de S .Mateus , 82, 4 (PG 58, 743).

10 Cfr. Caminho , n. 269, 537, 554; Forja , n. 831, 991; Cristo que passa , n. 151.

11 S. Josemaria, Caminho , n. 267.

12 S. Josemaria, Cristo que passa , n. 84.

13 Ibid.

14 S. Josemaria, Homilia Sacerdote para a eternidade , 13-IV-1973.

15 S. Josemaria, Cristo que passa , n. 64.

16 S. Josemaria, Notas tiradas numa tertúlia, Outubro de 1972.

17 S. Josemaria, Cristo que passa , n. 90.

18 Cfr. S.Tomás de Aquino, Suma Teológica , II-II, q. 84, a.2; S. João Damasceno, Sobre a fé ortodoxa , 4, 12 (PG 94, 1133).

19 S. Josemaria, Notas tiradas numa tertúlia, 4-IV-1970.

20 S. Josemaria, Caminho, n. 539, 538; Cfr. Sulco , n. 685, 686; Forja , n. 887.

21 S. Josemaria, Cristo que passa , n. 161

22 S. Josemaria, Notas tiradas numa meditação, 14-IV-1960.

23 «Lauda, Sion, Salvatorem, / lauda ducem et pastorem / in hymnis et canticis. / Quantum potes, tantum aude: / quia maior omni laude, /nec laudare sufficis» (Missal Romano, Solenidade do Corpo e Sangue de Cristo, Sequência Lauda Sion ).

24 S. Josemaria, Forja , n. 838. Cfr. n. 832, 837.

25 S. Josemaria, Forja , n. 824.

26 S. Josemaria , Sulco , n. 818.

27 S. Josemaria, Caminho , n. 533.

28 S. Josemaria, Cristo que passa , n. 151.

29 S. Josemaria, Cristo que passa , n. 156.

30 S. Josemaria, Homilia Sacerdote para a eternidade , 13-IV-1973.

31 Missal Romano, Solenidade do Corpo e Sangue de Cristo, Sequência Lauda Sion .

32 S. Josemaria, Carta 28-III-1973, n. 7.

33 S. Josemaria, Cristo que passa , n. 153.

34 Concílio de Trento, ses. XIII: Decreto sobre a Sagrada Eucaristia , cap. 4 (Denz. 1642).

35 Paulo VI, Credo do Povo de Deus, 30-VI-1968. Cfr. João Paulo II, Carta Enc. Ecclesia de Eucharistia, 17-IV-2003, n. 15.

36 Cfr., por exemplo, Pio XII, Carta Enc. Mediator Dei , 20-XI-1947; Paulo VI; Carta Enc. Mysterium fidei , 3-IX-1965; João Paulo II, Carta Enc. Ecclesia de Eucharistia, 17-IV-2003; Catecismo da Igreja Católica , nn. 1322-1419.

37 Cfr. Concílio Vaticano II, Const. dogm. Dei Verbum , n. 10.

38 S. Josemaria, Cristo que passa , n. 84.

39 S. Josemaria, Cristo que passa , n. 109.

40 S. Josemaria, Cristo que passa , n. 6.

41 S. Josemaria, Carta 28-III-1973 , n. 10.

42 S. Josemaria, Cristo que passa, n. 80.

43 Ibid, n. 6.

44 Cfr. S. Josemaria, Sulco , n. 817.

45 S. Josemaria, Cristo que passa, n. 155.

46 Concílio de Trento, ses. XXII, Doutrina acerca do Santíssimo Sacrifício da Missa, cap. 2 (Denz. 1743).

47 João Paulo II, Carta Enc. Ecclesia de Eucharistia, 17-IV-2003, n. 12.

48 Concílio de Trento, ses. XIII, Decreto sobre a Sagrada Eucaristia, cap. 7 (Denz. 1647).

49 S. Josemaria, Caminho, n. 533.

50 Ibid.

51 S. Tomás de Aquino, Col.4 sobre o Credo.

52 Ibid.

53 S. Josemaria, Carta 28-III-1973 , n. 61.

54 S. Josemaria, Homilia Sacerdote para a eternidade , 13-IV-1973.

55 S. Josemaria, Caminho , n. 509.

56 S. Josemaria, Forja , n. 887.

57 S. Josemaria, Forja , n. 556.

58 S. Josemaria, Via Sacra , XII estação, n. 4.

59 S. Josemaria, Caminho , n. 876.

60 S. Josemaria, Amigos de Deus , n. 232.

61 Ibid.

62 S. Josemaria, Forja , n. 827.

63 S. Josemaria, Carta 28-III-1973 , n. 7.

64 João Paulo II, Carta Enc. Ecclesia de Eucharistia, 17-IV-2003, n. 14.

65 S. Josemaria, Via Sacra , V estação.

66 S. Josemaria, Notas tiradas numa tertúlia, 25-VI-1972.

67 S. Josemaria, Notas tiradas numa meditação, 9-IV-1937.

68 S. Josemaria, Amigos de Deus , nn. 301-303.

69 S. Josemaria, Amigos de Deus , n. 249.

70 S. Josemaria, Forja , n. 835.

71 S. Josemaria, Cristo que passa, n. 154.

72 S. Josemaria, Cristo que passa, n. 129.

73 S. Josemaria, Homilia Sacerdote para a eternidade , 13-IV-1973.

74 S. Josemaria, Forja , n. 542.

75 S. Josemaria, Caminho , n. 23.

76 S. Josemaria, Sulco , n. 688.

77 Pio XII, Carta Enc. Mediator Dei, 20-XI-1947, n. 20.

78 João Paulo II, Carta Enc. Ecclesia de Eucharistia, 17-IV-2003, n. 12. Cfr. Concílio de Trento, ses. XXII, Doutrina acerca do Santíssimo Sacrifício da Missa, cap. 2 (Denz. 1743).

79 Catecismo da Igreja Católica , n. 1364.

80 S. Josemaria, Notas tiradas numa tertúlia, 22-V-1970.

81 João Paulo II, Carta Enc. Ecclesia de Eucharistia, 17-IV-2003, n. 11.

82 S. Josemaria, Notas tiradas numa meditação, 14-IV-1960.

83 S. Josemaria, Cristo que passa, n. 86-87.

84 S. Josemaria, Forja , n. 541.

85 Cfr. Cristo que passa , nn. 89-91.

86 S. Josemaria, Forja , n. 69.

87 Cfr. Missal Romano, Solenidade do Corpo e Sangue de Cristo, Sequência Lauda Sion .

88 S. Tomás de Aquino, Suma Teológica, III, q. 79, a. 1.

89 S. Leão Magno, Homilia 12 sobre a Paixão , 7 (PL 54, 357).

90 Catecismo da Igreja Católica , n. 1396.

91 Concílio de Éfeso, ano 431 (Denz. 262).

92 S. Josemaria, Amigos de Deus , n. 296.

93 S. Josemaria, Notas tiradas numa meditação, 19-III-1975.

94 S. Josemaria, Temas Actuais do Cristianismo , n. 123.

95 S. Josemaria, Via Sacra , XI estação, n. 4.

96 Concílio Vaticano II, Const. dogm. Lumen gentium , n. 3.

97 Cfr. João Paulo II, Exort. Apost. Reconciliatio et pœnitentia , 2-XII-1984, n. 31, I.

98 S. Josemaria, Forja , n. 828.

99 S. Josemaria, Forja , n. 834.

100 S. Josemaria, Caminho , n. 536.

101 Ibid. , n. 534.

102 Ibid. , n. 321.

103 S. Josemaria, Cristo que passa, n. 122.

104 S. Josemaria, Notas tiradas numa tertúlia, 4-IV-1970.

105 S. Josemaria, Caminho , n. 541.

106 S. Josemaria, Instrucción , 1-IV-1934, n. 3.

107 Recolhido por D. Álvaro, Carta , 16-VI-1978.

108 Ibid .

109 Ibid .

110 S. Josemaria, Forja . n. 826

111 S. Josemaria, Notas tiradas numa tertúlia, 6-X-1968.

112 Concílio Vaticano II, Const. Sacrosanctum Concilium, n. 47.

113 João Paulo II, Carta Enc. Ecclesia de Eucharistia, 1 7-IV-2003, n. 19.

114 João Paulo II, Carta Enc. Ecclesia de Eucharistia, 1 7-IV-2003, n. 18.

115 S. Josemaria, Temas Actuais do Cristianismo , n. 113.

116 S. Josemaria, Notas tiradas numa meditação, 27-III-1975.

117 Cfr. João Paulo II, Carta Enc. Evangelium vitæ , 25-III-95, n. 2.

118 S. Josemaria, Via Sacra , VI estação, n. 2.

119 S. Josemaria, Notas tiradas numa meditação, 25-XII-1973.

120 S. Josemaria, Caminho , n. 432.

121 S. Josemaria, Forja , n. 267.

122 Cfr. João Paulo II, Carta Enc. Ecclesia de Eucharistia , 17-IV-2003, nn. 53-58.

123 S. Josemaria, Cristo que passa, n. 89.

124 João Paulo II, Carta Enc. Ecclesia de Eucharistia , 17-IV-2003, n. 57.

126 S. Josemaria, Caminho, n. 495.

126 S. Josemaria, Notas tiradas numa conversa , 6-VI-1974 .

  • Roma, 6 de Outubro de 2004